CORTEGAÇA

Verão de 1990. Neste ano não marcamos férias. Deixamos o tempo correr.
Naqueles verões as férias eram mais saborosas quando improvisadas. Aquele ano foi assim.
Carregamos o carro com e essencial, e lã fomos sem destino definido.
Em cima da hora, não íamos sentados sobre nenhum relógio, partimos rumo a sul.
Não fomos muito longe. Era difícil sem marcação antecipada, encontrar algo disponível naquela altura.
Sem pressas fomos andando, quer dizer, rolando. O lema era: “Em frente é o caminho”.
Pouco depois de Espinho, lembrei-me de uma localidade que tinha visitado anos antes, que achei simpática, Cortegaça. Para lá nos dirigimos.
Entramos num minimercado e perguntamos se havia alojamento para férias. Há uma casa que ainda não foi alugada porque os donos passam muito tempo no hospital, porque a filha está doente. Vivem em Maceda. Foi a resposta. Para lá nos dirigimos, até porque é perto!
Conversa para lá e para cá, alugou-nos a casa por um preço demasiado acessível. Achamos estranho mas não se reclama quando é barato. Entregou-nos a chave e voltamos.
Surprise!... As condições eram mínimas! Mas foram umas das boas férias da nossa vida.
Para férias agradáveis, nem sempre é preciso grandes condições. É preciso sim, espírito para vivê-las da melhor maneira.



COTEGAÇA 1990

Como é belo acordar pela manhã com o barulho das ondas a rebentar na areia, sendo beijados pelo sol através das janelas, ao serem abertas de para em par, e acariciados por uma brisa marinha com sabor a sal.

Almoçar na varanda, debaixo do guarda-sol, sentindo a pele queimar, enquanto olhamos a imensidão do mar à nossa frente, sabendo que mesmo em casa, se trabalha para o bronze.

Caminhando ou descansando nos bancos do passeio gigante, ajardinado e bem iluminado à noite, onde a miudagem rola e farta-se de rolar, nas suas minibicicletas, enquanto os adultos individualmente ou aos pares, apanham o ar fresco da noite, antes de irem para a cama.

Dar ao pé dançando na discoteca Dacasca, tomar o café no simpático, acolhedor e bem decorado Dacasca Bar. Ouvindo boa música gravada ou ao vivo a partir das dez horas da noite. Comer uma pizza na Pizzaria Itália-Itália do italiano, tomar uma bebida curtindo música no acolhedor Coksi's Bar (Pub), ou ainda uma água na esplanada junto ao Parque de Campismo.

Efetuar as caminhadas matinais de manutenção - 3Km - até Esmoriz - Barrinha, e tomar um café com natas no Barqueiro ou um gelado (Pasolini) no Calypso.

Assistir à lota do peixe, e no regresso, dar duas de treta com o Sr. Telmo (Porteiro do Parque de Campismo de Esmoriz). Chegar e fazer praia.

Habituais escapadelas a Espinho à noite, descendo e subindo o passeio alegre lá do sítio, onde em grande número se podem ver turistas estrangeiros, das mais variadas nacionalidades, alguns de higiene duvidosa.

Percorrer toda a feira de Espinho de tenda em tenda, numa Segunda-feira, com um calor de rachar, a suar em bica a quase desidratar. Ao chegar a casa, esgotar todos os líquidos disponíveis, e chupar fatias e fatias de melancia fresca e deliciosa, qual melhor gelado da Olá, Pasolini ou Gelatti Motta!

Manhãzinha cedo, caminhar ao longo da praia, até ao ponto da chegada do barco carregado de pescado, assistindo à venda do peixe vivinho a saltar em estertores lutando contra a morte. No regresso, escolher pedras macias (jogas) multicores, para nelas escrever frases alusivas a Cortegaça.

Alguns raids - passeatas pelas localidades da zona: Furadouro/Ovar, Aveiro, Feira, Gafanha, Costa Nova e Barra. Nesta última, mirando a Ilha de S. Jacinto ao longe, contemplando o farol e admirando a imensidade de água entrando que vai formar a Ria.

Rolar ao longo da Ria no percurso Furadouro S. Jacinto. Comprar melões e melancias. Regalar os olhos vendo os barquinhos de recreio navegando com suas velas multicoloridas, e alguns, talvez dos últimos moliceiros, sempre agradáveis de ver, ancorados nas suas margens, outrora utilizados na apanha do moliço, que vai rareando, devido à poluição da sua superfície líquida, e não só.

Ver o postal vivo da pesca artesanal de arrasto na Torreira. Os bois bem nutridos, arrastando as redes para a praia, onde muitos turistas e não só, contemplam a faina e aguardam a chegada do peixe e respetiva lota que irá ser feita.

Regalando os olhos, apreciando as lindas vivendas junto à localidade, e os chalés em madeira, de muito bom gosto, construídas num ponto da praia.

Saborear as simples e agradáveis refeições, que devido ao estado de espírito de férias, sabiam sempre melhor que em qualquer outra altura, servidas dentro de casa ou ao ar livre.

O banho diário ao fim da tarde, com água aquecida pelo sol, no depósito em cima do telhado, quais placas de luz solar!

O fim aproxima-se e é o regresso à rotina doentia do dia-a-dia do trabalho e a saudade de algo simples, belo e repousante que fica para trás.


PORTONOVO

Estamos em 2003 e mais coisa menos coisa o mês das férias está aí em cima de nós. Ainda não sabemos nem temos ideia nenhuma para onde vamos.
Os dias estão lindos de um sol radioso. As esplanadas estão cheias de gente com o mínimo de roupa, meio vestidos meio despidos. O cheiro a férias anda no ar.
Temos de tomar uma decisão, tomar um café e tomar uma atitude positiva.
Em trabalho fiz algumas viagens para o norte de Espanha e encontrei sítios bonitos na Galiza. É para esta zona balnear que estamos a pensar ir.
Praticamente decidido que está o destino, falta escolher o local certo. Enquanto correm estes dias devagar, dei comigo a desfolhar uma revista da especialidade. Reparei num hotel que me pareceu interessante e com preço ao alcance da nossa bolsa em Portonovo / Sanxenxo. Estava encontrado o local.
Numa agência pediram-me o dobro do valor que vi na revista! Achei estranho e abusivo. Saí como tinha entrado, sem decisão. Enchi o peito de orgulho e disse de mim para mim: Vamos lá diretamente e veremos se é assim. Se não for este arranjamos outro.
Com alguns pertences na bagagem, iniciamos a viagem que, não é assim tão longe como isso! Aproveitaríamos o passeio, caso não batesse certo.
Chegamos lá. Foi uma agradável surpresa. O hotel está situado numa zona linda de pinhal e praia. O preço realmente acessível e não tivemos de pagar adiantado.
A viagem foi agradável e o percurso é muito bonito. As várias rias por onde passamos dão uma beleza refrescante àquela costa!
Já instalados, fomos inspecionar os arredores. Para começar, em Portonovo há tasquinhas onde se podem comer as tapas de marisco como em La Guardia. Há um cais de embarque e desembarque para visitas às diversas ilhas turísticas. A mais selvagem e mais procurada é a ilha de Onz. As praias não são grande coisa. Por sorte, o hotel tem piscina.
A cerca de 5 quilómetros, a caminho de Grove, há um parque de diversões, o Paris Dakart. Assim se chama. Fomos até lá. Tem karts para adultos e crianças com duas pistas com dimensões razoáveis. Num outro ponto, tem canoagem num lago grande. Jogamos uma partida de mini-golfe. Há pessoal a divertir-se nos trampolins. Um bar/restaurante de apoio e um quiosque com muitas recuerdos.
No percurso, porta sim porta sim há uma hostal (hospedaria ou residencial).
Fomos a Grove ver um aquário gigante com diversas espécies de peixes e os viveiros de douradas e robalos.
Aproveitamos já que era perto e demos uma saltada a La Toja ou como também se diz, A Toxa. Ilha lindíssima, não muito grande, com várias atrações. Esta ilha tem dois ou três hotéis de luxo, uma feira durante todo o verão de artesanato local, uma fábrica de sabonetes e outros produtos de higiene, um pequeno casino, um campo de golfe cheio de árvores numa das encostas, um centro de estágios para desporto e vivendas de encher o olho!
A partir de Grove, há uma ponte de acesso a La Toja, Devo dizer que aquele espaço aquático, é mais uma das muitas rias que por lá existem. É preciso fazer quilómetros para nos descolarmos de um lado para o outro, pois tem que se contornar aquela imensidade de água.
Portonovo acaba onde começa Sanxenxo e verse-virsa. Entre estas duas localidades, há uma feira semanal.
Foi bom e enriquecedor. Só foi pena que ao 4º dia uma carga de água que nunca mais acabava tomasse conta da região. Todos ou quase todos os hóspedes do hotel incluindo nós, tiveram de passar o tempo a jogar cartas, dominó ou a ver televisão no salão nobre. Isto porque não dava para sair, tal era a tempestade! Aguardamos dois dias. Como a chuva não parava, viemos embora.
No regresso passamos em Vigo e aproveitamos para comer paella e uma parrilhada argentina no Flunch e fazer umas comprecas no Al Campo.
Atravessamos a fronteira entrando em Portugal. Uma sensação desconfortável das férias acabadas antes do tempo era evidente!
Tinham na realidade acabado mas no ano seguinte haveria mais.



PRAIA DA ROCHA

Férias no Algarve em 2006 - Praia da Rocha.

PARTIDA ‬

‬ Chegou finalmente o dia da partida para férias!
Ainda faltavam umas horas largas, e a tolice já estava instalada, aliás, a tolice já estava instalada há muitas semanas atrás!
Escolha de hotel e respetivo preço, malas, roupas, meio de transporte, etc, etc, etc.
Como ia dizendo, o dia chegou.
Um amigo do nosso filho foi também. Mais novo um pouco, mas ambos miúdos. Estávamos à espera dele, fartinhos, mortinhos e vivinhos de saber que a mãe não o iria trazer tão cedo. Não sei porquê, a ansiedade estava a tomar conta de nós.
Tudo pronto para a partida. O preço incluía viagem de autocarro.
Apanhamos o transporte em Braga à meia-noite. A essa hora iniciamos na central a nossa viagem.
Chegamos um pouco cedo. Ainda esperamos um bom bocado. Deu tempo para num bar próximo, tomar qualquer coisa fresca.
A noite estava cálida. Um calor abafado e sufocante fazia-se sentir, como que a anunciar uma tempestade. Uma queda de granizo já se tinha abatido sobre nós, que mais pareciam calhaus a baterem no tejadilho dos carros. Até assustava!
Meia-noite em ponto, eis os autopullmans da Renex. Mais parece um nome de medicamento para as dores de cabaça ou para a má digestão! Depois de cumpridos alguns trâmites normais: Arrumar malas, vistoriar bilhetes e despedidas, lá partimos.
O ar condicionado ou forçado, sei lá, funcionava mal e porcamente. O calor era muito. Por causa disso, comecei a sentir uma pressão de dentro para fora, uma mistura de calor e humidade pesava-me no corpo. O suor estava vivinho para espirrar por tudo quanto era poro.
Estávamos completamente sós com mais cerca de quarenta ou cinquenta pessoas para nos fazerem companhia naquela viagem.
Paragem em Famalicão para o bicho comer mais gente e seus pertences. Toda a parolice da zona entrou naquele autocarro. Um baixo nível desgraçado e desgraçadamente atroz.
Os vizinhos dos bancos logo atrás de nós, brindaram a plateia, com piadas de gosto duvidoso e de um humor barato. Tinham a mania que eram engraçadinhos. Os amigos eram muito "agardecidos", pois riam a bandeiras despregadas. Aquilo foi muito giro, quase vomitamos.
Depois da ilusão que não se sai do sítio e que não se chega a lado algum, eis o Porto.
Até aqui foi assim.
No Porto a espera foi um pouco longa e penosa. Voltas e mais voltas nas ruas estreitas daquela cidade até que paramos ao lado dos jardins da Cordoaria.
Enquanto esperávamos sem saber por quem e para quê, valeu a risota: Um "manco" esteve largos minutos a tentar estacionar o carro, orientado por um daqueles arrumadores de carros, tão ou mais "tota" que ele. É caso para pensar que aquele condutor é dos que lhe faz muita confusão o carro ter três pedais e ele ter apenas dois pés!
A voz do condutor fez-se ouvir, interrompendo a risota: Senhores passageiros, os que forem para o Algarve têm de mudar. Então! - Ouviu-se um grupo de vozes:
- Disseram-nos que era direto!... Temos de mudar?
- É melhor, este faz escala em Lisboa e aquele nem a Lisboa vai.
- Ok, Ok!... - Disseram as mesmas vozes.
Valeu a pena. O ar condicionado ou forçado funcionava e a temperatura tornou-se bem mais agradável.
Por fim, lá partimos.
A velocidade era razoável. Foi comer asfalto quilómetro após quilómetro, durante muitos quilómetros.
A noite foi dando lugar à madrugada. O cansaço começou a tomar conta do pessoal. Cada um procurava a melhor posição para "cubar", que é como quem diz, bater uma boa sorna.
O motor gemia mesmo por baixo de nós, principalmente quando o motorista fazia reduções.
Corria a madrugada. A noite já há muito nos tinha engolido a todos. Os contornos das árvores, como que sombras, corriam no sentido contrário ao autocarro.
A minha gente procurava a melhor posição para dormir, e assim, vencer o cansaço que se estava a apoderar dela. Ora de frente, ora de lado, encolhida, com os pés sobre os meus joelhos, e assim por diante.
O nosso vizinho do banco do lado dormia com os fones do MP3 nos ouvidos. A música era perfeitamente audível. Não sei como conseguia dormir!
Eu, moi meme, de vez em quando passava pelas brasas, mas fugazmente. Adormecia e um minuto depois já estava acordado com dores no pescoço, e a sensação que tinha dormido horas.
Às páginas tantas, adormeci um pouco mais profundamente. Raiava o dia quando acordei. Estávamos a entrar numa área de serviço qualquer em pleno Alentejo.
Nunca cheguei a saber qual era. Também não quis perguntar. Uma ténue claridade rompia no horizonte. Era a alvorada de mais um dia. O cansaço tinha sido mais forte, venceu-me. As dores no pescoço estavam presentes.
Têm quinze minutos, ouviu-se a voz do motorista.
Todo o mundo estava impaciente para sair. Todos tinham o estômago vazio, bexiga cheia, todos precisavam desentorpecer as pernas e alguns fumar o seu cigarrito. Pareciam formiguinhas a sair da toca em filinha para a casa de banho!
Como era evidente, os finos e ricos, iam fazer xi-xi. Os parolos e pobres iam mijar.
Depois de verter águas despejando a bexiga, era preciso matar ou por quieto, o ratinho que roía no estômago. Para vesse efeito, havia muita coisa. Tudo para o bar. Bolos, sanduíches, sumos, cafés, etc. e tal, estavam à disposição, pagando, claro!
Esgotados os quinze minutos, as formiguinhas voltaram à toca ambulante. Esta pôs-se a rolar.
O terreno era plano e a paisagem um pouco agreste. Estava tudo muito seco! Aqui e acolá, um grupo de oliveiras e terra seca à sua volta. A certa altura, alguém comentou para os amigos: Olha os teus primos! Eram vacas pascendo a erva seca por entre alguns pinheiros mansos e oliveiras.
O Algarve recebeu-nos ainda a dormir.
A bifurcação Faro/Albufeira apareceu finalmente! Volta e mais volta, chegamos a uma localidade perto da Guia-Albufeira, chamada Vale de Paraíso. Paragem no terminal de autocarros. Eram 7H30 da manhã.
Senhores passageiros vão ter de mudar para outro autocarro:
Nº 1 - Albufeira, Vilamoura e Quarteira - 8H30.
Nº 2 - Faro, Olhão, Tavira, Monte Gordo e Vila Real de S. António - 9H00
Nº 3 - Portimão, Alvor e Lagos - 8H30.
Esta última era a nossa carreira. Mais uma hora de espera. Partimos quando ainda faltavam dez minutos para a hora marcada.
Torres, torres e mais torres. Empreendimentos turísticos ora ao longo da estrada nacional 125 ora junto às praias. Albufeira, Guia, Porches, Armação de Pera e outras, iam ficando para trás.
Passamos Alcantarilha e respetivo Aqualand (Big One) e Lagoa e o seu "Slids and Splashs" (Parque aquático). A linda e bela ria de Portimão estava à nossa frente. A zona urbana estava já ao alcance da vista mas ainda faltavam cerca de três quilómetros. Atravessamos a cidade. As placas dizendo Praia da Rocha sucediam-se. Enquanto estávamos atentos a estas placas, a voz do motorista interrompeu a nossa observação.
- Praia da Rocha - disse.
Temos de sair. Cadê o mar?!...
Nada de mar à vista! Este era a cerca de 500m.
Já fora do autocarro, enquanto recolhíamos as malas, perguntamos ao condutor: - Por favor, onde é este hotel? Mostramos-lhe um papel. - Nesta rua em direção à praia, mais ou menos a meio.
A a avenida a romper as rodas das malas no asfalto, enquanto os nem sequer tinha iniciado a marcha!
Olhei para trás para os chamar, e eis o hotel bem conhecido das revistas e internet. Saímos mesmo em frente e não demos por isso! Lá tivemos de voltar. Motorista estúpido!

O HOTEL Torres e muitas torres encimadas por ogivas arredondadas.
Guardamos as malas numa sala apropriada. A mesma onde ingleses e franceses guardam as bags e valizes.
.Dirigimo-nos à receção para o check-in. Foi-nos colocada uma pulseirinha de identificação de All Inclusive.
O hotel era mesmo grande. Um pequeno mundo! A zona envolvente à receção era muito bonita.
Tinha dois restaurantes, um internacional e outro italiano. Havia ainda o bar das piscinas, onde havia quase permanentemente um self-service sem pagar mais um tostão: Sanduiches várias, gelados, água fresca e outras bebidas como: Vinho, cerveja, colas, ices, sumos diversos, café, leite, capuchinos, etc.
A esplanada junto às piscinas, era grande e coberta. Tinha mesas e cadeiras normais de um lado, sofás do outro. No exterior tinha espreguiçadeiras e guarda sois. Tudo amarelo.
O idioma mais falado além do português, era o inglês. Mas também o espanhol.
Um duo musical, abrilhantava as noites no salão nobre, tocando e cantando êxitos de várias décadas. Era agradável ouvir e ver ao vivo, musicas que marcaram os nossos tempos, embora executadas por outros intérpretes. Beatles, Santana, Eric Clepton, Scorpions, Rui Veloso, eram alguns dos muitos com que fomos brindados. Como a maioria das letras eram em inglês, muita estrangeirada acompanhava cantando nos seus lugares, enquanto ingeriam tudo quanto era bebida. Pareciam odres a beber, sobretudo canecadas de cerveja! Enquanto decorria o espetáculo, tomávamos a nossa bebida, acomodados nos sofás que eram muitos.
O ar condicionado refrescava o ambiente, que contrastava e muito com a temperatura do exterior, embora a noite não fosse desagradável de todo. Mas naquela noite não saímos.

A PRAIA

Antes de descer, um olhar panorâmico sobre a praia. Praia extensa e linda. Ao mar de água juntava-se um mar de areia que nunca mais acabava. Grupos de guarda-sóis com áreas bem definidas, distinguiam-se perfeitamente. Cada grupo com sua cor. A vista geral era um todo multicolorido. Lindo!
Ao longo da praia, foi construída uma rua toda em madeira em cima de estacas. De espaço em espaço, bares com esplanadas, que à distância pareciam contentores. Desta rua em madeira, havia vários passadiços de acesso e saída da praia.
As vistas do mar para terra, também eram agradáveis. A falésia e os edifícios lá em cima desafiavam o mar.
O pior era regressar. Em alguns pontos, havia escadarias quase a pique! Parte do solário do Hotel Algarve Casino estava suspenso entre dois morros. As pessoas em cima não se apercebiam de tal.
A água do mar era boa. Havia a preocupação de manter a areia limpa. Muitos barquinhos e motos de água para alugar, destinados a pequenos raides nas ondas daquela superfície líquida.
Comemos as célebres bolas de Berlim, compradas aos vendedores ambulantes de caixa ao ombro, que palmilhavam todo o areal.
Várias fulaninhas fazendo topless, com a pele muito queimada. O preto das mamas não se distinguia do resto do corpo. Aquelas trabalhavam intensamente para o bronze.

ESTADA

O hotel de apartamentos era muito grande tanto em largura como em altura. No exterior, as árvores ao seu lado, embora grandes, pareciam pequenas. O vento soprava forte nas alturas. Não havia toalha que aguentasse no parapeito das varandas. Algumas voavam e só paravam nos ramos dessas árvores. Era caso para dizer, que aquelas árvores davam frutos coloridos, tipo toalha de praia.
A gordura era formosura. A maior parte da estrangeirada eram gordos, gordos! Ao lado desta gente, sentimo-nos elegantíssimos. Era evidente uma certa satisfação interior.
Era Domingo. A tarde estava no seu começo. Tínhamos acabado de almoçar. Resolvemos tomar o café no bar da piscina. Os vermelhões na perna da minha cara-metade diziam que a alergia ao sol estava presente. Era preciso agir rapidamente ou estragava-nos as férias. Ainda estavam no princípio! Gel ou spray à base de cortisona era o mais indicado. Era preciso ir imediatamente à farmácia local comprar os ditos cujos medicamentos. Nem sequer sabia onde era!
O relógio naquele momento marcava três horas da tarde. A farmácia devia estar a abrir. Precisava descobrir onde era. Estava um calor de rachar àquela hora da tarde. O suor escorria por mim abaixo. Escolhi um percurso à sombra de alguns hotéis. As toalhas continuavam penduradas na árvore a servirem de frutos. O mesmo vento que do parapeito das varandas as atirou para lá, não as atirou para o chão.
A farmácia fica perto da praia, num dos lados onde ainda não havíamos ido. Estava fechada. Nada informava se abria ou não. Era Domingo...
Informado por alguém, fiquei a saber que abriria às quatro horas. Sem outro remédio, tive de esperar. Voltar para trás estava fora de questão. Nem morto! Com aquele calor!...
Aproveitei para fazer algumas descobertas. Dirigi-me para o lado esquerdo em ralação ao acesso à praia. Era uma zona bonita com muitas lojinhas de bijuterias e bares com esplanadas castiças de mesas e banquinhos fora do comum. Comprei alguns postais meios marados! Resolvi ir lá com toda a prole, mas noutra altura.
Segui rua abaixo. O forte estava já muito perto, mas não continuei. Estava muito calor e já me sentia cansado.
Regressei com a pomada e as indicações para aplicar à sombra.
Numa tarde qualquer daqueles dias daquela semana, passeava com famelga na rua marginal junto à falésia da praia. Surprise!... Esbarramos com a família caracol. Caracol? Sim, quer dizer, Ziza, marido e filhotes. Estavam numa das muitas esplanadas a comerem qualquer coisa. O puto é giro. Carregado de óculos parecia um doutor em miniatura! A carapaça, aliás, a rulote, tinha ficado algures em qualquer sítio daquela terra. Não a chegamos a ver. Conversamos sobre tudo e sobre nada. Tinham feito uma pausa para lanchar. É sempre agradável encontrar alguém conhecido. Falamos de coisas conhecidas e outras desconhecidas. Enfim, trocamos galhardetes, quer dizer novidades. A conversa estava boa mas tínhamos de continuar. Despedimo-nos. Os caracóis iriam com certeza partir para outro local qualquer com a sua casa às costas.
O tempo continuava limpo. A tarde caminhava para o seu fim. O sol fugia rapidamente. Uma cor indefinida de luz e sombra, pairava sobra a praia. A marina avistava-se a certa distância através dos mastros dos iates aí ancorados. Esta marina situa-se na margem direita do rio Arede, cujas águas corriam calmamente para o mar.
A pouca distância, o forte ou ruinas dele, guardava as entradas e saídas do rio. Terá sido a sua função noutros tempos.
A temperatura no final do dia estava agradável para dar um pequeno passeio. Era sempre melhor a essa hora, que durante o dia com o calor intenso e o sol sobre as nossas cabeças, derretendo-nos os miolos. Estes passeios serviam para descobrir outros pontos, outras ruas menos frequentadas. E descobrimos: Ginásios, bowlings, lojas e restaurantes chineses, outros hotéis e residenciais. Foi uma caminhada diurética. Era preciso andar.
A noite caiu entretanto apanhando-nos em algumas daquelas ruas pouco iluminadas. Regressamos ao hotel. No salão nobre, estava no auge uma sessão de karaoke. Uma jovem hospede, cantava uma canção de Dulce Pontes, demasiado bem para ser uma simples amadora. O espetáculo acabou. Dirigimo-nos para o elevador. Contra o que era habitual, pouca gente à espera do mesmo. 9º Andar. Aí chegados, apartamento 914, o nosso. O dia ia terminar como todos os outros: Na cama a dormir. Acordaríamos no dia seguinte com a sensação de ter passado apenas um pequeníssimo intervalo entre o fim de um dia e o início de outro.
Manhã cedo, tínhamos direito à sinfonia da gaivota ou gaviota como diziam os espanhóis, e eram muitos os que lá estavam. Gritos estridentes faziam-se ouvir. Os seus filhotes, nascidos e criados no terraço da nave central daquele hotel, tentavam sem sucesso, os seus primeiros voos. Não sei como, alguns putos conseguiram chegar aquela parte do teto. Talvez através do elevador, não sei. Com medo que lhe roubassem as crias, a mãe ou pai gaivota, iniciavam voos picados sobre os intrusos, acompanhados de altos gritos. A canalha foi obrigada a fugir rapidamente por onde tinham saído, antes que a sua integridade física ficasse em perigo. Passados uns dias, uma das crias conseguiu voar e desapareceu daquele lugar. A outra ainda ficou. Talvez mais temerata, não quis arriscar. Quando partimos ainda lá estava.
As vistas do 9º andar eram muito boas. Avistavam-se as águas espelhadas do Arade ao longe. As pontes sobre a ria. O mar estendia o seu lençol líquido era muito azul.
Avistava-se também o empreendimento vermelho junto à marina (Arade Hotel). Os edifícios e o verde que os rodeava. Viam-se as piscinas do próprio hotel e os pontos à sua volta que eram as espreguiçadeiras. Os outros pontos em movimento eram as pessoas deslocando-se de um lado para o outro. As cúpulas arredondadas das outras torres. As árvores e a relva na orla da pequena rua no interior do empreendimento eram bonitas vistas de cima. A estrada que seguia para o Alvor e Lagos e o nosso imaginário do que estaria para lá da linha do horizonte.
Passeata noturna. Aperaltados para sair, ainda deu tempo para tomar um cocktail e assistir a parte de espetáculo musical, que decorria no salão nobre. Já com os miúdos, iniciamos o passeio. Havia animação de rua: Homens estátua, música, pintores retratistas, caricaturistas e grafiters. Também lojinhas e tendinhas de bugigangas, recuerdos, lembranças. As lojas de rua e o centro comercial estavam todos abertos. O FM aproveitou para comprar uma t-shirt preta da seleção nacional, no centro comercial, numa loja de artigos de marca, como não podia deixar de ser. Numa loja de artigos diversos, compramos também algumas prendinhas.
O miradouro estava cheio de gente. Era fresco e as vistas sobre a praia eram magníficas àquela hora da noite. Um arzinho fresco e agradável vindo do mar, fazia-se sentir, acompanhado de um cheirinho a maresia. Ao fundo da rua, num espaço apropriado, crianças e adultos, rolavam nuns carrinhos de três rodas dando ao pedal.
Exceto alguns minutos de um determinado dia, o céu esteve sempre azul e limpo. O sol esteve sempre intenso de manhã à noite. Os seus raios queimavam e bem.
Nas espreguiçadeiras do solário junto à piscina, na praia ou ainda no caminho, foi um trabalhar constante para o bronze. Por acaso não foi muito conseguido, mas que tentamos, tentamos.
Com o cair da noite, vinha também uma brisa fresca com um certo sabor a sal. Esta brisa refrescava o ar, e era bom para dormir.
A manhã ia a meio. No solário, duas espreguiçadeiras à nossa frente, uma fulana gorda e bem gorda, fazia topless. As mamas enormes pareciam ovos de avestruz estrelados, esborrachados no peito. Só visto!
Na piscina infantil, muitos miúdos de várias nacionalidades e diversas cores: brancos, pretos e amarelos, brincavam chapinhando na água. Alguns pais ajudavam e amparavam os seus rebentos.
A água escorrendo do cogumelo, formava como que um paraquedas líquido. Mais parecia uma alforreca gigante.

AQUALAND

Panfletos com lindas imagens e tabelas de preços dos vários divertimentos, que o Algarve tinha para oferecer, desde divertimentos aquáticos ou de interior, era o que mais havia na receção do hote: Parques aquáticos, caça, safaris e outros. Até os bilhetes vendiam para as diversas excursões! As partidas e chegadas eram mesmo à porta do hotel.
Depois de alguma ponderação, relativa ao que era melhor em termos de preços, diversão, espaço, comodidade e condições, a escolha recaiu no Aqualand.
Tomada que foi a decisão, fomos comprar os bilhetes e pedir o respetivo piquenique. Com o regime All inclusive, tínhamos direito a ele. Uns minutos antes da partida, dirigimo-nos ao minimercado, mesmo em frente num outro hotel pertencente aos mesmos donos. Entregamos a senha que nos tinha sido fornecida para o efeito, e esperamos.
Não queríamos acreditar que aquilo era o piquenique que nos haviam reservado! Dava vontade de rir, para não chorar, claro! Uma maçã, uma garrafinha de água, um pão, um pacotinho de manteiga e outro de geleia, e um pacote de batata frita. Paciência!
Eram vários os transportes para aquelas diversões. Para cada parque o seu autocarro. À hora marcada partimos. Uma voltinha pela localidade. Duas de treta com o motorista. Passamos pelas salinas. Atravessamos novamente Portimão. Seguimos para Alcantarilha - Aqualand (Big One).
Introduzidos no interior do parque, procuramos naquele imenso espaço, o melhor sítio para passar o dia. Os miúdos não demoraram a percorrer tudo quanto era diversão.
Depois de ingerir o frugal piquenique, tomamos café no restaurante que havia lá dentro, enquanto os rapazes tinham desaparecido. Tiramos e tiraram-nos fotografias. Compramos suvenirs na botique: Biquini, toalha de praia, postais e outras merdices.
Às páginas tantas, sem que ninguém esperasse, umas bátegas fortes de chuva caíram impiedosamente sobre toda a gente. À pressa, recolhemos as roupas, que foram postas a salvo debaixo do para-sol de palha. O tempo manteve-se cinzento durante algum tempo, não muito.
Enquanto numa das piscinas, tentava ensinar a minha mais que tudo a nadar, mas sem sucesso, caiu mais um pouco de chuva. Só se estava bem na água, pois a temperatura fora dela era um pouco mais baixa. O calor depressa voltou, ajudando a que fosse um dia agradável e bem passado. À hora regressamos.
Fomos informados que o autocarro iria dar uma volta maior para largar passageiros. Sem saber ler nem escrever, íamos ter um passeio extra e conhecer algumas localidades daquela zona. Que bom!
Primeira paragem em Lagoa - Hotel no centro da cidade. Em Portimão seguimos em frente na direção de Alvor. O autocarro parou e ouviu-se a voz do motorista - Quinta Nova. Saíram dois jovens. Pela pinta, nórdicos. Era esta a Quinta Nova Sun Club! Estivemos quase, quase para ir para lá. Ainda bem que não fomos. A praia é longe p'ra caramba!
Nova paragem, desta vez no centro de Alvor. Mais perto da praia, mas mesmo assim ainda bastante longe. Continuamos e chegamos ao Vau. Hotéis e empreendimentos de luxo! Paramos num deles. Um mundo! Saiu um casal de estranjas. O autocarro quase dava a volta lá dentro!
Novamente em movimento. O autocarro acaba por ser um ponto muito bom para observar a paisagem, visto estar a uma distância razoável acima do solo.
Junto à via, empreendimentos espetaculares. As chamadas villas. Aldeamentos de casinhas individuais, com piscinas e jardins bem cuidados. Lindas! Lindas! O preço devia ser uma nota preta. Aquilo só para gajos ricos. É lá que Mário Soares passa as suas férias. Quando for grande, quero passar férias num sítio assim.
Estava a observar, quando à distância, mas perfeitamente ao alcance da vista, vejo o hotel em forma de cunha. Estávamos a chegar à Praia da Rocha. Descemos a avenida das palmeiras e paramos no ponto de chegada. Saímos.
A excursão acabou onde tinha começado. Ali mesmo.
Antecipamos para a véspera o nosso regresso. Estávamos a ficar pretos de corpo e alma com aquilo tudo. Ligamos à Renex, fizemos as malas e despedimo-nos do apartamento.
Foi bom enquanto foi.
Malinhas a rolar para o elevador e dali para o exterior. Algo lindo, belo e repousante, tinha acabado. Para o ano, num outro local qualquer, haverá mais. Até lá.
As situações relatadas, não tiveram nada de especial. Foram iguais a muitas outras. A maneira como foram vistas e vividas, é que foi diferente. Vistas com outros olhos e vividas com outro espírito. O espírito de férias. Mais calmo e relaxante, mais positivo e menos crítico.
A forma stressante como vivemos o dia-a-dia, não nos deixa ver a beleza das coisas.

REGRESSO

Bilhetes validados pelo telefone. Uns minutos antes, já estávamos no ponto de encontro com respetivas valises, bags, malas. À hora marcada, o autopullman lá estava para nos transportar de regresso.
Várias paragens para recolher mais pessoal. Lagoa (Slids and Spalsh), Porches, Armação de Pera, ficaram definitivamente para trás.
Finalmente chegamos a Vale de Paraíso - Albufeira, terminal de autocarros. A tarde caminhava para o seu fim, mas ainda havia sol. Este aproximava-se lentamente da linha do horizonte, para se esconder, dando lugar à noite. Alguma espera até que o autocarro comesse toda a carga: passageiros e bagagem.
Deu-se a partida. Depois de algumas voltas, demos por nós na autoestrada. Algum tempo para a ambientação. De repente fomos engolidos pela noite. Os contornos das elevações do terreno pareciam fantasmas a deslizar na escuridão.
Uma amálgama de vozes fazia-se ouvir. Todo o mundo conversava. Nada se percebia em particular. Aos poucos foi diminuindo de intensidade. As vozes deram lugar a um murmúrio e este ao silêncio. O cansaço tomou conta daquela gente. A maioria dormia.
Uma placa dizendo, área de serviço de Almodôvar, veio ao nosso encontro e rapidamente ficou para trás.
Não havia um lugar vago. Todo o mundo teria de se acomodar no seu para passar pelas brasas.
Uma música suave brotava das colunas e espalhava-se naquele ambiente. O ram-ram do motor também se fazia ouvir. Mais intenso a subir. Dava para perceber o sofrimento daquele motor arrastando todo aquele peso. A agonia da camioneta carregada na subida.
Paragem por alguns minutos na área de serviço de Aljustrel. O mesmo de sempre. Bar, casa de banho, mas sobretudo fumar o seu cigarrinho. De muitas bocas, espirais de fumo iam para o ar. Notava-se um ar de satisfação nas pessoas.
Novamente a caminho a comer mais uns quilómetros de asfalto. Depois de comidos uns largos deles, eis uma grande cobra luminosa: A ponte Vasco da Gama com toda a sua plenitude. Dezasseis quilómetros para chegar ao outro lado. Doze em cima de água.
Arredores de Lisboa a nossos pés. Paragem na Gare do Oriente para mudar de transporte e distender os músculos das pernas. É madrugada. Uma etapa estava vencida.
Iniciou-se o regresso definitivo ao norte. O Minho verde Minho espera-nos. Depois de uma ou outra paragem, a cidade do Porto e os jardins da Cordoaria. Ia alta a madrugada.
A torre dos Clérigos não deixou de se evidenciar. Ali ao lado, já fervilhavam os preparativos para a feira de Vandoma (feira franca de usados e antiguidades), embora ainda estivesse a algumas horas de acontecer.
Central de Famalicão para vomitar alguma da carga que tinha comido - passageiros e malas.
Ao amanhecer, chegamos a Braga - Central. O Rover levado pela Maria lá estava. O sol rompia e uma claridade cor de fogo, surgia nos limites do nosso alcance, quando chegamos a Guimarães.
Lar doce lar. Tiramos o dia para dormir. Recuperar da viagem era preciso. Ao acordar, uma sensação estranha de não se saber onde se está. No Algarve ou já em nossa casa? Os números luminosos do relógio na mesinha de cabeceira, diziam que eram nove horas. Da manhã ou da noite? Da forma como o sol entrava pela janela, não eram da noite. A ilusão que tinha dormido uma eternidade era evidente, tal era o cansaço. Enfim, era o despertar para a realidade. As férias tinham acabado! A seguir? A seguir nada. Rotinas habituais.



QUINTA DO PIRULEIRO

Como fomos parar a Afife e à Quinta do Piruleiro em 2008?
Por motivos vários, decidimos ficar por cá a "pastar".
Um dia:
- Vamos dar um pequeno passeio. - Aonde? - Não te interessa, entra no carro. Carro apontado à estrada, entrei na portagem da A11, desta à A3 e depois à A24 em direção a Viana do Castelo. Aqui chegado, apontei à estrada nacional e só parei em Afife, e mais propriamente na Quinta do Piruleiro. Uma amiga falou-nos desta Quinta, que para descansar não havia melhor nestas redondezas.
Gostamos mesmo daquele espaço! Tanto que demos logo um sinal e ficamos presos a um compromisso de uns dias depois passar umas pequenas férias para descansar.
Como a querida, minha mulher, estava à beira dum esgotamento, aquilo era mesmo o ideal para ela naquela altura. Duplicou a dose dos medicamentos para arrebitar e aterrou. Anda sempre ao contrário!
Demos uns passeios nos arredores, mas a maior parte do tempo passou-o a dormir. Dormia bem de noite, dormia bem de manhã e à tarde não tinha insónias!
2008 Agosto, Quarta dia 6.
Não planeamos férias. O nosso filhote vai quinze dias para qualquer lado com namorada e amigos. E nós? A dita amiga falou-nos numa quintinha para lá de Viana, Quinta do Piruleiro - Afife. Até o nome é engraçado! Vamos tentar.
Apetrechos e mudas necessárias para uma semana não mais. Rodinhas na estrada e lá vamos nós. Três quartos de hora andando nas calmas e Afife a nossos pés. Para encontrar a dita cuja, é preciso penetrar no interior da povoação. Aí é que são elas! Quintinhas e residências antigas mas recuperadas, bem bonitas, com muros altos, mas os caminhos estreitos que só cabe um carro de cada vez. Caso se encontrem, o que tiver mais condições tem de recuar, o que não é nada agradável. Tirando estes inconvenientes, aquilo até é giro. Não me importava nada de ter lá uma quintinha de férias.
A serpentear naquelas vias apertadas seguindo sempre as indicações, que diga-se a verdade, não faltavam, lá chegamos.
Primeira impressão foi de agradável surpresa. O espaço não era grande mas todo relvado, e tinha várias árvores de sombra. Logo na entrada à direita estava a receção e um grupo de casinhas geminadas (apartamentos T1 e T2). Logo a seguir num plano ligeiramente superior, um grupo de apartamentos, T1s em cima e T2s em baixo. Como só precisávamos de 1 T1, ficamos em cima. Simpático e apetrechado com tudo que era preciso. A piscina e o bar estavam ali à mão de semear.
Acomodamos tudo e fomos à praia. Bem boa, vigiada e com um grande restaurante de apoio. Não dava para ir a pé, porque a distância ainda era razoável.
Novamente a rolar naqueles caminhos estreitos e apertados. Mas but.
Intercalamos praia com piscina, demos alguns passeios e fomos ao Continente de Viana fazer as compras para a semana. A minha metade da laranja, aproveitou para dormir bastante, visto que estava à beira de um esgotamento.
Como em grande parte dos dias ela estava a dormir, eu aproveitava para andar a pé pela localidade, conhecer os pontos mais interessantes e tirei fotografias a tudo quanto me agradava do ponto de vista fotográfico: Casas antigas, quintas, arbustos e flores, plantas autóctones, animais, etc.
O espaço era mesmo acolhedor e simpático. De quando-em-vez, passávamos um tempinho no bar a conversar com a dona daquilo, enquanto tomávamos o cafezinho da ordem.
Um dos passeios foi a Vigo. Fomos dar uma vista de olhos àquela cidade galega. Tem alguns pontos de interesse. De resto é uma cidade como todas as cidades: Prédios e mais prédios com ruas a passar no meio, mais nada!
Doía-me o joelho. Amanhã vai chover, comentei com a minha companheira durante a viagem de regresso de Vigo. Mas não, não choveu. O sol também não apareceu. Está um dia muito nublado e a fugir para o cinzento! Peguei no livro que fala de África e sentei-me na esplanada improvisada na pequena varanda do apartamento. A garrafinha do panaché e o pires com tremoços também marcaram presença.
Fiz uma pousa na leitura e pus-me a contemplar o nada, absorto em pensamentos e ao mesmo tempo, observando tudo há minha frente. As três casas modernas com grandes portas de vidro e espaços relvados, do lado de lá do estreito caminho que nos divide, lá estavam a provocar-me alguns pensamentos: Quem me dera assim uma casa de férias!
A maré está a montante. O barulho intenso das ondas a rebentar na areia, faz-se ouvir, apesar da distância, cerca de um quilómetro. Algumas rolas e gaivotas cruzam o céu a pouca altura.
No relvado da casa em frente, a mais à esquerda, três gatinhos jovens brincam. Dois deles amarelos e pretos e o outro branco e preto. Às tantas, tentam passar uma grade para uma propriedade das traseiras. Um deles consegue passar mas os outros não. Tentaram contornar o muro com cerca de três metros de altura. O perigo era eminente. Caindo não tinha hipóteses de regressar. Desistiram. Entretanto o outro regressou e juntou-se aos companheiros. Correram a brincar para trás da casa. Perdi-os de vista.
Por breves instantes perdi o olhar na distância observando a linha do horizonte. As copas dos pinheiros inertes roçavam o céu. O vento suave nem bulia com a sua ramagem.
Quando direcionei novamente o olhar para as casas à minha frente, acabava de aparecer um gato adulto no palco da minha observação. Pai ou mãe dos infantes. Atravessa uma grade e salta para um muro um metro e meio mais abaixo, e daí para um terreno ao lado que parece abandonado, à espera que alguém o compre. O terreno está pejado de capim seco, árvores gigantescas e arbustos em estado selvagem. O gato caminhava devagarinho por entre os arbustos como quem procura algo. De repente pôs-se em posição felina para o salto de ataque a alguma presa. Esteve assim durante alguns segundos. Não aconteceu nada e voltou à sua posição descontraída. A vítima que não foi deve ter fugido e gorou-se a possibilidade de caça. O gato desapareceu naquela densa vegetação e virei a minha atenção para outros pontos.
Regressei ao meu livro e conforme lia imaginava aqueles locais que conhecia minimamente. Muitos daqueles nomes eram-me familiares.
A minha companheira dormia. Gostava de dormir de manhã.
O tempo continuava triste do género: “Não chove nem sai de cima”. Soprava uma brisa marinha, trazendo consigo o barulho do mar que continuava com os seus rugidos.
Planeamos ir à praia. Se o tempo continuar assim, o mais certo é não haver praia para ninguém.
De vez em quando este tempo cor de chumbo, nem sol nem chuva, marcava a sua presença. Tempo estúpido que tinha influência na nossa disposição. Nem chove nem deixa chover, nem sol nem “guardanhol”, que provocava o vamos à praia ou ficamos na piscina?
A semana acabou e regressamos ao ram-ram das rotinas. Mas valeu, pois o médico disse à dona do meu coração que os sonos que ela aproveitou salvaram-na do esgotamento!
Disse tudo? Talvez não. Não me ocorre mais nada que mereça realce.



ALDEAMENTO DO CAMARIDO

Em 2009 o cansaço na minha companheira aproximou-se perigosamente da linha vermelha. É preciso mudar urgentemente de ares, para fugir ao cansaço e às rotinas do dia-a-dia.
Na costa norte de Portugal, há zonas bonitas, verdejantes e repousantes. Ouvimos falar no Aldeamento Turístico do Camarido, em Moledo do Minho. Estamos determinados a passar lá uns dias para descansar e aliviar a cabeça do dito cujo stress.
As responsabilidades letivas em acumulação com funções de coordenação e gestão escolar, contribuem para que no final do ano, princípio das férias, atinja um cansaço extremo.
Julho 18 de 2013. Esta data é o fim do período escolar e início das férias deste ano. Escolhemos o dia seguinte 19, para partir rumo ao norte, distrito de Viana do Castelo. Neste dia e depois de munidos das toalhas de praia, respetivos cremes, mudas de roupa e outras tretas que achamos necessárias, metemos tudo no carro, incluindo o Zullu, o nosso cãozinho Shar Pei, iniciamos a marcha, para percorrer mais ou menos setenta quilómetros, até ao destino, Camarido.
Decidimos seguir pelas estradas nacionais, não só para não pagar portagens, mas também por causa do Zullu. Este após os primeiros quilómetros mostrou-se um pouco receoso. Andar de carro, não eram propriamente os seus hábitos. Daí… era preciso andar devagar até se ambientar. Para rolar a baixa velocidade, não justifica utilizar as autoestradas!
Depois de passar Braga, notou-se que o cãozinho estava um pouco stressado. Aproveitamos um pequeno parque na estrada Braga-Barcelos e fizemos uma pequena paragem para o deixar dar uma voltinha fora do carro, beber e fazer algumas da suas necessidades fisiológicas básicas. Resolvidos estes breves contratempos, lá fomos e não voltamos a parar, até chegar ao local onde fomos passar uns dias para desopilar.
A viagem foi decorrendo sem acidentes nem incidentes. No desvio para a Amorosa, poucos quilómetros antes de Viana, os semáforos ficaram de repente vermelhos. Paragem repentina para não transgredir, e o Zullu é projetado do banco de traz revestido com uma manta para não sujar os estofos, contra as traseiras dos bancos da frente com certo estrondo. Ficou ainda mais stressado. Tivemos de o acalmar.
Enquanto esperava o verde para iniciar o andamento, acenderam-se na minha mente, algumas lembranças e recordações antigas: Do lado direito estava o restaurante “Caracol”, do esquerdo o desvio que seguia até à Amorosa. Era o FM muito pequenino. Nessa altura, íamos a caminho de um pequeno período de férias na Amorosa. Antes de embicarmos nesse desvio, estacionamos o carro no parque daquele restaurante e entramos. O relógio no pulso mostrou-nos a hora. Eram duas e vinte e cinco da tarde. A especialidade era marisco. Não era suposto pedir outra coisa! Um arroz de marisco veio a calhar. Talvez porque o tivessem poupado com os outros clientes, a nossa travessa o que mais tinha eram aqueles bichinhos que chamam camarão, lagostins e outros que tais! Era preciso procurar o arroz no meio de tanto marisco. Foi uma sorte. A outra recordação foram uns dias felizes que passamos os três na Amorosa e dos passeios maravilhosos que fizemos nesses tempos.
- O sinal já está verde, não andas?
Fui acordado para a realidade e para o presente pela minha companheira.
Ao passar na ponte velha sobre o Lima, que liga Darque a Viana, reparei na marina no rio mesmo por baixo da ponte, com lindos barcos aí ancorados. Todos sabem, pelo menos os que me conhecem melhor, que gosto de barcos, aliás, tudo que diz respeito ao mar. Mais peixe que carne na alimentação. Gosto de praia, barcos, pesca, etc. etc. Gostava de fazer cruzeiros em cidades flutuantes. Tenho estes pensamentos, enquanto converso de coisas totalmente diferentes com a cara-metade a meu lado!
Ao passar em Afife, reparamos que o Zullu estava mais calmo, e já se deitava no banco de traz para dormir. Por falar em Afife, afloraram outras recordações mais recentes da Quinta do Piruleiro. Quinta pequena mas muito acolhedora e simpática.
Conforme avançamos, revemos locais que há muito não víamos. Passamos no Parque de Campismo de Gelfa e atravessamos Vila Praia de Âncora. Avivar de mais lembranças antigas desta simpática cidade. Mais dois quilómetros e Moledo a nossos pés. Como não vimos nada que indicasse o aldeamento, fomos andando. Apontamos para a foz do rio Minho, pois aquela pequena floresta, é conhecida pela mata do Camarido! Fomos dar ao Parque de Campismo. Aí informaram-nos que ficava do outro lado da linha férrea. Voltamos para traz, que remédio! No sentido norte/sul, chegamos à rotunda de Moledo, e aí apontamos agulhas para Cristelo. Andamos cerca de mil e quinhentos metros e finalmente o aldeamento. Entramos, estacionamos o carro e fomos fazer o check-in. Rececionista simpática e sorridente recebeu-nos. Deu-me a chave com o número 10 e indicou-nos a situação do apartamento. Estacionamos o carro à porta e entramos nos nossos temporariamente aposentos. O Zullu ambientou-se rapidamente ao seu novo espaço.
O Aldeamento

Simpático e bastante maior que a Quinta do Piruleiro. Situado a meio caminho entre Moledo e Caminha, cerca de um quilómetro e meio para cada lado e servido por uma estrada secundária que liga estas duas localidades no sentido de Cristelo. Podemos chamar-lhe aldeia, bairro ou simplesmente aglomerado de casinhas geminadas rés-do-chão e primeiro andar. Entre cada corrente de casinhas, existem passeios de e para a piscina, de e para o bar e de e para diversos pontos do aldeamento.
O edifício principal onde estão a receção, as salas de jantar e de estar, o bar e os serviços administrativos, parte o aldeamento a meio. O acesso a qualquer dos lados é feito através de um túnel nesse edifício. Para os carros, há duas entradas a partir do exterior norte e sul.
Foi-nos destinado o número 10, t1 rés-do-chão, bem situado, pertinho da piscina. No exterior contiguo à porta da sala, há relva com cadeiras e pufes em plástico, onde se pode apanhar sol, ler e descansar.
O empreendimento está num sítio aprazível inserido na mata do Camarido. Mesmo em frente à receção, uma garagem e pequeno estacionamento. Nessa garagem estão dois carros clássicos, lindos!
Era nas cadeiras de plástico na relva junto à sala que era feita a leitura dos livros que levamos.
Os estrangeiros lá hospedados eram muito simpáticos, a maioria alemães. Quando não queriam arriscar um goodmorning ou um gootmoken, presenteavam-nos com um sorriso.
Em alguns daqueles dias, esperamos pelo final da tardinha, quando as praias já estão quase desertas, levamos o Zullu para o areal de Moledo. Correu como um tolinho numa alegria louca aos saltinhos naquela areia. Ficou com tanta areia no focinho, que mais parecia um panado. Valeu a pena pela contagiante alegria que demonstrou. No regresso tomamos café numa das esplanadas de Âncora Praia para matar saudades.
Nesse período, decorreu a feira medieval em Caminha. Uma manhã fomos até lá. Nas tasquinhas assavam porcos no espeto. Havia muitos cheiros no ar, e o Zullu estava inconstante no comportamento.
Numa daquelas tardes em que paramos numa das agradáveis esplanadas, metemos conversa com um casal simpático a propósito do Zullu e falamos sobra a vila.
Caminha é muito bonita e tem muitos indícios históricos. Em frente do outro lado do rio, é o Monte de Santa Tecla em terras espanholas.
Mas voltando ao local do crime, quer dizer das férias, a estrada divide o empreendimento da linha do comboio. Este passa duas ou três vezes por dia, talvez quatro. Ao passar deixa um barulho ferrugento e arrastado no ar, da luta constante de ferros com ferros, as rodas contra os trilhos.
Os funcionários são uma espécie de veículos todo-o-terreno, explicando-me melhor, polivalentes. Tanto estão no bar ou na esplanada a servir cafés ou outra coisa qualquer, como conduzindo os hóspedes aos seus apartamentos servindo de cicerones, mudar as roupas das camas ou as toalhas das casas de banho, como limpar os apartamentos nos dias a isso destinados. Também trabalhar na receção, e sempre com um sorriso nos lábios.
Na estrada junto ao aldeamento, há do lado esquerdo no sentido Moledo-Caminha, um passeio de cimento pintado de amarelo. É simultaneamente ciclovia e passeio pedonal. Muitas pessoas, fazem todos os dias jogging e rolam nas bicicletas. Há um senhor de cabelos brancos, que pelo menos duas vezes por dia, andou lá para cima e para baixo com o seu cão Shar Pei pela trela. Esse senhor sou eu, me, e o seu cão é o Zullu.
Apesar de estar de férias continuava a acordar cedo todos os dias. O cão depressa me rondava para o levar a passear e também para fazer qualquer coisa. Numa destas saídas matinais com o Zullu, ia eu caminhando em passo curto e lento no dito passeio, e o meu companheiro, o cão, cheirava tudo por onde passava, quando oiço latidos, que pelo som, eram de cão pequeno. Olho para todo o lado e não vejo nada. Dois ciclistas aproximavam-se. Rapidamente chegaram a onde estávamos, e os latidos aumentaram de volume, mas continuava a não ver. Só quando passaram, é que reparei: O homem levava na bicicleta, uma cestinha com compras. A mulher transportava um Buldogue Francês numa gaiola moldada ao seu corpo. Achei aquilo engraçado. O som dos latidos foi-se perdendo na distância, e a visão dos ciclistas também.
O Zullu continuava a cheirar tudo. Já estávamos bastante afastados do aldeamento. Eu continuava à espera que ele fizesse com força e doçura por seu bem qualquer “cousa” mas nada. Muito devagar, andamos mais de um quilómetro e chegamos à passagem de nível na periferia sul de Caminha! Passei para o outro lado da estrada, e regressei junto às moradias de férias. No meio destas, há um terreno vago, espaçoso e limpo de vegetação, à espera que alguém construa lá mais uma. O bichinho puxou-me para lá. Pensei que ia resolver-se. Já era sem tempo! Parou e demorou um pouco mais que o habitual a cheirar um pequeno arbusto. Talvez sentisse o cheiro de outro animal que lá deixou a sua marca. Enquanto esperava, a minha imaginação começou a funcionar aceleradamente. Aquele terreno já era meu. Pensar não custa dinheiro. Por isso, deixem-me imaginar em grande. A casa era muito espaçosa. Entrava-se através de um portão em madeira. Desembocávamos num grande jardim e daí a uma ampla varanda. Quartos e escritório da parte da frente. Sala e cozinha para traz. Em frente à sala, uma brutal piscina cheiinha de água límpida e transparente. Em frente a esta, uma pequena inclinação do terreno, com as espreguiçadeiras bem alinhadas. No primeiro andar, dois quartos numa espécie de águas-furtadas, completadas com varandas. No outro lado do terreno, árvores de fruto e produtos hortícolas. Estava deliciado com estes pensamentos, quando sou terrivelmente acordado para a realidade pelo Zullu, que deu um forte esticão na trela, por causa dum bando de pombas que pousou a pouca distância de nós. É sabido que ele adora pombas. Só não as apanha se não puder! Nesse instante disse de mim para mim: Daa, cai na real! Acorda! E acordei. Decidi-me a voltar ao aldeamento. Antes de chegar, atravessei novamente a estrada e num pequeno canavial junto à linha férrea, o Zullu decidiu-se cumprir a sua obrigação. De uma vez por todas, voltei ao meu T1 no empreendimento!
O dia começa a raiar por volta das seis da manhã, e entra no quarto sem pedir licença através dos furos nas persianas. A essa hora, o galo inicia a sua sinfonia de cânticos com pequenos intervalos entre si. Seguem-se as rolas com o seu rolhar caraterístico. De vez em quando as araras também dão um ar da sua graça. Encostados a um dos muros do aldeamento, há algumas casinhas com portas em rede contendo diversas aves. Uma cheia de rolas. A seguir outra com uma galinha normal, uma garnisé e um periquito convivendo no mesmo espaço. Logo a seguir, um galo sozinho, coitado! Por fim um compartimento com duas ou três araras. Tudo isto muito perto do nosso apartamento.
Num outro dia, mas desta vez bem ciente da realidade, regressei ao terreno para melhor o inspecionar e poder depois contar como foi. Atravessei-o até ao fundo através do capim cortado de fresco, pisando aqui e acolá alguma hortelã que vai renascendo verde e viçosa. No fundo deste espaço, há uma vala que se estende por muitos metros nos limites daquelas vivendas e terrenos. Esta está seca, mas penso que vai dar muito jeito no inverno, quando o período pluvial for mais forte, para escoamento das águas. Para lá desta vala, uma floresta densa de austrálias, quase impenetrável, a precisar de limpeza. Quando tudo observava, reparei numas flores silvestres que me chamaram à atenção. Colhi algumas para colocar na mesinha de cabeceira da minha companheira enquanto dormia. Assim, ao acordar, iria sentir que alguém a ama muito. Digam lá se não é um gesto bonito e romântico!
No segundo dia acordei cedo. Enquanto a minha parceira dormia, pois não tem culpa que eu não tenha palha no ninho, tomei o pequeno-almoço e fui inspecionar o aldeamento, e tirar algumas fotografias, enquanto havia sossego. De máquina em punho, percorri o espaço todo. Uma foto aqui, outra foto acolá. Neste percurso arranjei um amigo improvável, um gato. Preto, matizado de amarelo, chegou-se a mim a miar de uma forma lânguida, miau. Simpatizou comigo e não pude ficar indiferente. Chamei-lhe tareco, fiz-lhe umas festinhas e deu a volta toda a traz de mim. Entrei no apartamento e ele ficou à porta. Não o deixei entrar, porque temi a reação do Zullu. Passados uns minutos voltei. Ele tinha desaparecido dali. Um dia depois vi-o na esplanada do bar, entregue aos mimos de um turista alemão ali hospedado.
No dia marcado regressamos. Foi muito agradável, mas tinha chegado ao fim. Metemos todos os pertences nas malas e fizemos o mesmo percurso, só que agora no sentido contrário. Notou-se um certo alívio no Zullu ao chegar a casa, a sua casa!
Valeu a pena, pois tivemos momentos de descontração num ambiente diferente e longe das rotinas habituais.