DOURO ACIMA



DOURO ACIMA

Esta história aconteceu em 2016.

Há quanto tempo... Sim, há quanto tempo andávamos a pensar em fazer um cruzeiro no douro e nunca mais nos resolvíamos. Pensávamos e não passava disso! Até que num dos cafés dominicais com uma amiga, em que o filho desta também apareceu, a propósito não sei de quê, falou-se do assunto. Por coincidência, também tinham pensado no mesmo.
Desenrascado como é, o jovem prontificou-se a resolver a situação. De um momento para o outro marcou a viagem. O 22 de Agosto de 2016 foi o dia escolhido ou disponível. Estava a fazer-nos falta um empurrão destes.
Gente jovem com disponibilidade que nos vai faltando a nós. Só assim, empurrados no bom sentido para a aventura. Foi bom, soube bem, e se calhar vamos precisar de mais empurrões destes. Qual é o próximo?
Naquele dia, o bando dos cinco… Não, os cinco da vida airada… Também não, nós os cinco simplesmente, a amiga, o filho e namorada, a minha cara-metade e eu, lá fomos por aí a baixo para depois ir rio acima. Não havia certeza se a partida do barco seria às oito ou às nove. Pelo sim e pelo não, chegamos cedo. Num carro amplo que o jovem desenrascou, estacionamos no parque de Miragaia ainda não eram oito horas. Devagar devagarinho, naquelas ruas estreitas, dirigimo-nos para as docas da Ribeira. O “nosso” barco e outros já estavam no cais ancorados.
Enquanto esperávamos, demos umas voltinhas naquele espaço. Estava bom tempo e prometia um lindo dia de sol. As esplanadas já estavam a ser montadas para o fervilhar de vida que iria acontecer à noite.
À hora marcada, os passageiros formaram uma filinha junto à escada que nos conduziria à embarcação. Pouco a pouco o barco foi engolindo aquela gente incluindo nós. De imediato foi servido o pequeno-almoço. Mesa 8 a “nossa” mesa. Lá estava o triângulo em papel com a identificação do jovem bem visível. Razoável café da manhã: Sumo, pão, bolo, manteiga, compotas e café com leite. Depois de aconchegados os estômagos, todo o mundo subiu ao convés. Pouco depois o barco largou as amarras e começou as deslizar sulcando as águas rio acima. Passamos a ponte D. Luís e do lado de Gaia lá estava a serra do Pilar imponente e misteriosa como sempre. Todas as outras pontes foram-se sucedendo: Ponte do Infante, ponte Dona Maria, Ponte S. João, ponte do Freixo e outras. No convés, havia cadeiras para toda a gente e bancos laterais, uns a bombordo e outros a estibordo. Ninguém queria perder peta da paisagem. Alguns colocaram-se na proa, talvez para verem a quilha a cortar as águas naquele ram-ram a 20 Km/hora. A maioria no convés passavam o tempo cada um à sua maneira. Ora admirando a paisagem, tirando fotografias ou simplesmente não fazendo nada. A certa altura, o sol resolveu começar a queimar a pele daquela gente, pois de um momento para o outro tornou-se forte e intenso. Bom para quem quisesse trabalhar para o bronze.
Lindas paisagens tanto numa margem como na outra. Foi aproveitar o momento para nos reencontrar, connosco e com a natureza. Foi conhecer novas paisagens, fazer descobertas, descansar e aliviar do stress do dia-a-dia e partilhar experiências. Subir o rio Douro ou descer de comboio ou de autocarro, é simplesmente lindo! Vale a pena.
Subimos até à cidade da Régua. Para a próxima poderá ser até Barca D’Alva. Quem sebe! O que se aprecia nas margens do rio é divino, deslumbrante. Os desníveis de Crestuma/Lever e Carrapatelo são experiências ricas, únicas e espetaculares. O serviço de bordo foi muito agradável e simpático. A refeição foi regada com vinho maduro, razoável e fresco.
Antes de descrever os desníveis e a hora do almoço, um pouco de história: O rio Douro é um dos maiores de Portugal, mas também dos mais bonitos. O seu comprimento ronda os 927 Km e é o terceiro mais extenso da Península Ibérica. Foi e ainda é uma fonte de riqueza para as populações ribeirinhas. É nas margens deste rio que se situa uma das mais importantes, antigas e tradicionais regiões demarcadas produtoras de vinho. A história do Vinho do Porto é a mais emblemática. As cidades do Porto e Gaia muito devem ao seu rio. Entra por Portugal dentro em Barca D’Alva. É um canal de transporte privilegiado. Foi a via para transportar os vinhos da Régua para as caves de Vilas Nova de Gaia. Antigamente era um rio perigoso. Com a construção das barragens, tornou-se um rio navegável para grandes barcos de cruzeiro, que se cruzam ora rio acima ora rio abaixo. A região vinhateira do Alto Douro, Património da Humanidade, é uma vista deslumbrante.

OS DESNIVEIS:

No percurso até à Régua, há dois desníveis. Devagarinho aproximou-se do primeiro, Crestuma/Lever. Entrou lentamente no pequeno túnel. Atrás de si, a comporta em forma de livro fechou-se. O barco foi preso num sistema a funcionar em pequenos carris verticais numa das paredes laterais. O nível das águas subiu cerca de 25 metros e demorou mais ou menos 20 minutos. O jovem aproveitou este espaço de espera para meter conversa com um dos comandantes. Valeu-lhe um convite para visitar a casa do leme. A embarcação com o seu conteúdo, pessoas e bens chegou ao nível superior e continuou a viagem.
Barragem de Carrapatelo, segundo desnível. O mesmo sistema do anterior, só que a comporta deste era em forma de guilhotina. Este meteu um pouco mais de respeito. Trinta e cinco metros e cerca de meia hora para chegar lá acima. Visto de baixo para cima, parecia impossível de vencer. Aquela altura era descumunal e metia medo depois de saber que teríamos de ir lá para cima. Também se venceu e a viagem continuou.

HORA DO ALMOÇO:

Toque para o rancho, comida, almoço, como queiram. Todas as formiguinhas se dirigiram para a toca, sala de jantar. Antes do almoço propriamente dito, foram servidos alguns aperitivos, sólidos e líquidos: Pão torrado com rodelas de chouriço, mini pataniscas de bacalhau e vinho do porto. Nós escolhemos rosé. Coisa boa, simplesmente delicioso e espetacular! A seguir, carne estufada com arroz ou batata e legumes, regado com vinho branco maduro fresco que devido ao calor escorregava bem gargantas abaixo. Dizem que as comidas não são grande coisa. Realmente não são, mas a fome encarregou-se de atenuar as diferenças entre o razoável e o sofrível. Para sobremesa, foi servida uma fatia de bolo que estava bem bom.
A popa não tinha espaço ao ar livre. O seu interior era ocupado com o bar de um lado e as casas de banho do outro. A música de serviço era do Quim Barreiros. O pessoal divertia-se com esta música brejeira. É sempre engraçado ouvir aquelas letras, cujas intenções se leem indiretamente nas entrelinhas.
- Está a nascer um negócio na tua cabeça, Zé
- Corta o mal antes que cresça, Zé.
E assim por diante.
E o povo divertia-se. Alguns até dançavam em espaço reduzido!
Havia um pouco de tudo: Emigrantes, Brazucas e Portugas.
A namorada do jovem espalhava a sua simpatia, com um sorriso constante estampado no rosto.
Devagar foi vencendo a distância quilómetro após quilómetro. Localidades mais ou menos importantes foram sendo ultrapassadas. Uma delas Castelo de Paiva. Lá estava no topo de uma ponte, o Memorial em forma de anjo com umas grandes asas viradas para o céu, em homenagem às vítimas da queda da ponte há uns anos atrás. Logo a seguir e à vista desarmada, o abraço do Tâmega ao encontrar-se com o Douro, sua foz em Entre-os-Rios. Aí, fazendo uma curva ligeiramente à direita, aquele veículo aquático continuou o seu percurso.
As vinhas nos socalcos sempre a subir a partir do rio, é um espetáculo de beleza verdejante, só visto.
Ao fim de praticamente cinco horas, Peso da Régua à vista. Na margem sul, era bem visível o reclame gigante da Sandeman e na margem norte a moldura urbana da cidade. Muitos barcos grandes e pequenos a entrar e sair da estação marítima. Não nos pudemos afastar muito daquela zona, pois o tempo entre a chegada do barco e a partida do autocarro era muito pouco, o suficiente para num bar próximo matar a sede, pois o calor tornou-se quase insuportável. O jovem acabou por comprar recuerdos, uma garrafa de vinho do porto rosé e outra de moscatel.

REGRESSO:

Junto ao cais da Régua, o guia da empresa que nos iria acompanhar, juntou muita gente à sua volta tentando informações referentes ao regresso. Desavenças por mau comportamento da Carris l evaram a que o regresso se fizesse de autocarro e não de comboio. Chegou a hora e o autocarro de dois andares foi comendo aquela gente toda. Iniciou a marcha dirigindo-se pela parte norte da cidade nas vias rápidas e autoestradas. A paisagem das vinhas nas encostas continuava a deslumbrar.
Fomos deslizando de umas autoestradas para outras, passando por alguns tuneis de menor importância. Depois de estarmos fartos de comer asfalto durante alguns quilómetros, eis o túnel do Marão. Tem 5,7 Km de extensão. Eu como outros ainda o não conhecia. Há males que vêm por bem. A troca do trem pela “caminheta” serviu para isso. Aquela obra gigantesca é de se lhe tirar o chapéu. Parabéns à engenharia portuguesa.
Ainda houve tempo para parar numa área de serviço para refrescar as ideias, quer dizer as goelas. Só que os preços foram de tal maneira caros que quase ficávamos com elas entaladas na garganta. Abusos!
Era quase noite quando chegamos ao Porto. O motorista conduziu o veículo nas ruas da cidade até à estação de S. Bento. Queria que o autocarro nos vomitasse ali. Conversa para trás e conversa para a frente, acabou por nos levar até à entrada da Ribeira mesmo juntinho à parte inferior da ponte de Dom Luís. Seguimos devagarinho nas docas. A vida fervilhava nas esplanadas e restaurantes. Já me tinham falado nas docas do Porto (Ribeira), mas nunca pensei que fosse assim. É mais do que imaginei! Tudo esgotado naquele espaço. Nunca vi tanta gente junta no mesmo lugar. A estrangeirada era mais que muita. Mesmo que nos quiséssemos sentar não havia onde. Seguimos para o carro e daí para casa no sentido inverso ao feito de manhã. Há muito que a noite nos tinha encontrado quando chegamos a casa. A viagem tinha chegado ao fim. Cansados e satisfeitos de um dia fantástico para mais tarde recordar. A aventura acabou onde começou, Guimarães. Da capital europeia da cultura para o mundo, saudações afetuosas.
Ficou com uma ideia do que é um cruzeiro no Douro? Bem, contado é uma coisa e vivido é outra!

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