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ANGOLA NO CORAÇÃO

ANGOLA E PARTICULARMENTE LUANDA
Não nasci mas cresci, estudei, trabalhei e vivi intensamente naquela grande terra!
Há muitos anos atrás, com praticamente toda a família que era numerosa, tinha eu 10 ou 11 anos, atracamos no porto de Luanda, e por muitos anos por lá ficamos naquele território. Também não posso dizer que vivi naquela terra a minha meninice, porque passados dias de ter chegado, o meu pai pôs-me a trabalhar. Tive de ser adulto antes do tempo. No entanto, vivi a minha juventude de uma forma intensa e irreverente. Também não brinquei, pois não tive tempo, mas estudei, trabalhei, farrei e gozei tudo que havia de bom. Fiz amigos e namorisquei. Quem sabe se um dia lá voltarei!
Angola fica situada na costa ocidental de África e está entre o Equador e Trópico de Capricórnio, é portanto um país tropical, banhada pelo oceano atlântico.
Tem espaços imensos e horizontes largos, tanto físicos como mentais da terra e das gentes que lá viviam.
Longos meses de calor mas muita humidade. Praias maravilhosas de norte a sul que dava para desfrutar quase o ano todo, e interior ora verdejante ora seco principalmente na savana.
Terra potencialmente muito rica em quase tudo, tanto no solo como no subsolo.
Na cidade de Luanda vivi enquanto lá estive. Era uma cidade linda e com muita vida, tanto diurna como noturna. Essa vida fervilhava a cada segundo que passava e em cada poro dos seus habitantes.
O amanhã não era relevante. O que contava era viver o presente intensamente.
Terra grande que dava para o pessoal se espreguiçar à vontade. As grandes distâncias eram já ali. Não se pensava em pequeno, só em grande.
Em Luanda como em outras cidades, a cultura era elevada, tanto dos letrados como daqueles sem formação académica.
As cores eram vivas. O tempo não as desbotava.
Após eclodir as lutas de libertação, um boom económico explodiu. A qualidade de vida era uma realidade. Também havia focos de miséria. Infelizmente havia.
As mentalidades eram diferentes. Até parecia que não tínhamos nada a ver com Portugal, este pequeno e mesquinho jardim à beira mar plantado.
Tinha inúmeros sítios de interesse. Angola tem muitas maravilhas naturais.
Em outros pontos deste site, vou falar de mais temas desta que foi uma maravilhosa terra.

UM POUQUINHO DE HISTÓRIA
Angola deriva de N’gola, palavra bantu. Os bantus eram povos que habitaram numa região muito próxima e um pouco para leste da atual Luanda.
A economia de Angola era predominantemente agrícola. Só a partir dos anos 70 se começou a diversificar. O café tornou-se numa das principais culturas. O “ robusta” mais naturalmente e o “arábica” duma forma mais elaborada. Algumas fazendas de cana do açúcar de quilómetros e quilómetros de extensão a perder de vista. Angola chegou a ser o maior produtor mundial de milho. Também se produzia em grandes quantidades o sisal, óleo de coco, de palma e amendoim, algodão, tabaco e a borracha. A produção intensiva de batata, arroz, cacau e banana, foi uma constante e muito importante para a economia daquele território. Havia ranchos e grandes explorações de gado bovino, caprino e suíno que era preciso percorrer de jipe.
A rosa de porcelana, flor natural que em água e aspirina durava fresca cerca de seis meses, exportou-se em grande escala para todo o mundo.
Foi introduzido no deserto do Namibe o caracul, raça de carneiro, cuja pele começou a ser exportada para a Europa para confeção de vestuário de agasalho.
Os recursos minerais são incalculáveis, especialmente diamantes, petróleo e minério de ferro; possui também jazidas de cobre, manganês, fosfatos, sal, mica, chumbo, estanho, ouro, prata e platina. As minas de diamante estão localizadas perto de Dundo, no distrito de Lunda.
Foram descobertas jazidas de petróleo em mais ou menos 1966, ao longo da costa de Cabinda, e mais tarde mais para sul desta cidade até Luanda.
Angola tornou-se num dos mais importantes países produtores de petróleo. Isto ajudou e de que maneira o desenvolvimento económico. No ano da independência, foram localizados depósitos de urânio perto da fronteira com a Namíbia.
A música é muito ritmada e a dança acontece espontaneamente. A presença constante no dia-a-dia das pessoas está inserida num contexto sociocultural e é uma forma de intervenção. Esses ritmos apelativos estão no sangue e na alma de cada um e manifesta-se deste tenra idade. A identidade musical de Angola destaca-se hoje em dia pelos diversos estilos: Semba, Kuduro, Kisomba e mais alguns.


  ANGOLA PROFUNDA

    MAIS ANGOLA
E porquê mais Angola? Porque há sempre algo mais a dizer sobra aquela terra tropical.
Vivi sempre em Luanda.
Visitei algumas cidades e localidades, não tanto como gostaria de o ter feito, e estive lá tantos anos! Agora não há nada a fazer. Não está nos meus planos voltar. A minha mulher e o meu filho nunca lá estiveram e gostaria de lhes poder mostrar, mas está muito difícil.
Vamos falar sobre Luanda? Não das parangonas dos jornais nem das manchetes, mas tão só de trivialidades. Da simplicidade do que foi nosso quotidiano. Está bem?
Ok vamos lá.
Não, não é por nada, é que conheço melhor Luanda que o resto de Angola.
Pois claro estive lá largos anos da minha vida! Antes e até 1977. Foi neste ano que vim para a santa terrinha, Portugal.
Luanda era uma cidade linda multicolorida. Não há invernos para lhe estragar as cores. É difícil lá ter estado e não gostar de voltar.
Morava na cidade alta. Próximo havia o ringue de jogos do Vilinha (Vila Clotilde), clube onde joguei basquetebol. O barulho da claque ouvia-se perfeitamente. Começou a morder um bichinho cá dentro. Eu e um irmão íamos assistir aos treinos, depois treinar e por fim jogar fazendo parte do clube.
A Contracosta junto ao Restinga, era a praia que frequentávamos aos domingos de manhã. O sol maravilhoso e as ondas com mais de 3 metros de altura onde nos balançávamos, eram o forte daquelas manhãs domingueiras. Uma fugida ao Restinga para comprar uma bebida era habitual. O regresso a casa faz-se de machimbombo. Este está completamente cheio e há gente em pé. O Jorge convida uma amiga a dar o lugar a três. Também não é assim tão gorda! Chegar e tomar banho de mangueira no quintal.
As idas frequentes ao cinema, principalmente ao Ril. No quartel era bem mais barato! Mas também ao Restauração, S. Paulo, Miramar, Avis, Nacional, Tropical, Colonial e Cazenga. Não havia televisão!...
Apetece-me uma mariscada. Umas quitetas e umas cucas geladinhas ou nocais, tanto faz. Vamos ao Cacuaco? Também pode ser no Amazonas, Portugália ou Baleizão. Por falar em Baleizão, vamos lá comer umas cassatas? Ai aquelas cassatas! São espetaculares! Ou preferem ir a S. Paulo comer uma feijoada picante bem regada com canhangulos? É só escolher.
Aqueles natais no nosso quintal com cinquenta e mais pessoas eram um pequeno mundo. Os veados caçados naquela noite pelo nosso irmão e os leitões em cima da mesa, assados nos fornos da Pastelaria Mimosa. Uma delícia! Para a festa, vamos à Frigor comprar gelo e carradas de camarão cozido. O mercado do Quinaxixe não é longe e dá para lá ir de vez em quando. Aproveitar para apanhar gajajas no percurso.
Temos farra este fim-de-semana. Não sei a que propósito mas também não interessa. As farras aconteciam por tudo e por nada. Em casamentos, batizados, carnaval, fim de ano, finalistas e mesmo sem motivo. Já que falei em finalistas, lembro-me perfeitamente da festa de finalistas do meu curso. Foi no Cine Bar Tropical. Começou às nove da noite e acabou às sete da manhã, com ida direta para a praia.
O meu último trabalho foi numa empresa de tabacos da cidade. Quando fui admitido nesta empresa, o chefe do escritório que me entrevistou disse-me os meus direitos e deveres. Um dos direitos eram três volumes de cigarros por mês, um maço por dia. Disse-lhe que não fumava e ele respondeu que passaria a fumar. Olha-me este! Pensei mas não disse nada. Passados uns tempos, guardei na gaveta da secretária os volumes acabados de receber. Por razões que agora não me lembro, apeteceu-me um cigarro. Com eles ali à mão de semear, não resisti. Só depois me lembrei que tinha dado razão ao meu chefe. Passei mesmo a fumar!
Todos os anos havia reuniões com o pessoal administrativo, para acertos diversos, promoções e outros assuntos. No final havia um almoço com todo o pessoal pago pela empresa. Um desses, não me lembro qual, foi num restaurante chinês muito chique que existia na Ilha. Não tinha nada a ver com estes que há cá. Era mesmo fino. Era um empregado para dois ou três clientes, sempre atrás de nós para o que fosse preciso. Lembro-me perfeitamente que o vinho era rosé, adocicado e bom. Bebia um copo e virava-me para o lado para conversar. Quando voltava a olhar para o copo já estava cheio novamente. Perdi o controlo dos copos que bebi e apanhei uma bebedeira monstra. Só tive tempo de chegar a casa para não vomitar no carro da boleia que apanhei. Fiquei doente durante dois dias com uma ressaca de caixão à cova.
Uma amiga das minhas irmãs aparece muitas vezes na sua mini-honda. Temos um grupo espetacular de amigos onde um deles é o animador principal.
As corridas estonteantes das minhas irmãs mais novas, ora de bicicleta ora de patins no passeio da nossa rua, fazem impressão.
Vou frequentemente ao Liceu feminino, para ver as raparigas a sair. Numa dessas fui de vespa, a pequenina que tive. Pus-me a fazer habilidades para impressionar. Derrapei e caí. Como não tinha um buraco para me enfiar nele, montei e fugi dali com o rabo entre as pernas, como sói dizer-se, carregadinho de vergonha. Bem feito, quis-me armar…

    POR ESSA ANGOLA DENTRO
Vou levar as minhas recordações um pouco para fora de Luanda. Não é por nada em especial, mas porque já falei de algumas coisas da cidade e também porque me bateu cá dentro uma certa saudade. Resolvi por isso escrever agora, enquanto me resta alguma memória para falar de algumas das minhas vivências naquele país tropical. Pequenas histórias que vou reviver, contadas duma forma peculiar muito à minha maneira.
Vamos, venham daí.

    PEQUENA VIAGEM RUMO A NORTE
ANOS 50, 60 E 70
Até 1977 residi na parte alta da cidade de Luanda. É precisamente aqui que iniciamos a nossa viagem.
Os cânticos acompanhados ritmadamente com palmas na igreja adventista da Assembleia de Deus, que funciona no Maculusso, vão-se ouvindo cada vez mais tenuemente, conforme nos afastamos.
O clube Vila Clotilde (Vilinha), onde joguei basquetebol e a Liga Africana mesmo ao lado onde estava o ringue que usávamos, estão na mesma. Ai vilinha vilinha que saudades! Saudades da adrenalina dos jogos de basquetebol. Este clube arrastava multidões para os seus jogos!
Atravessamos a Paiva Couceiro, apontamos para a zona do Miramar, metemos à rua António Enes e entramos na estrada da lixeira. Nesta zona e à saída, muita gente formava um quadrado à volta dum campo de futebol pelado. Sobre aquela terra barrenta, vermelha e endurecida, decorria um jogo de futebol entre bairros. Quem sabe se foi aqui que os Dinis e os Mantorras deste país, iniciaram as suas carreiras futebolísticas!
Aqui e acolá algumas cabras na falta de melhor, comiam papéis!
Definitivamente ruma-mos à estrada do Cacuaco.
   
Cacuaco. Uma olhadela à praia. As ondas rebentam na areia suja. Um porco preto procura restos de peixe deixados pela maré. Estacionamos e entramos num daqueles muitos restaurantes.
- Camarão e quitetas para todos por favor.
- P'ra beber?
- Cucas e nocais geladinhas. Também laranjadas mission e coco-pinhas. As quitetas bem picantes com muito gindungo eram uma delícia. A boca picava de ardência. Nada que não se pudesse resolver o fogo deixado na boca com a cerveja muito fresca, mesmo gelada goela abaixo.
- O camarão é do pequenino, pois é muito mais saboroso.
- Ok, ok.
O Cacuaco é uma vila pequena e simpática. Dista de Luanda cerca de vinte quilómetros. Mas é já ali. Aos fins-de-semana triplica a sua população. A população residente é muito pouca. A culpa é do marisco variado que lá se come. E não é caro! A maioria dos seus edifícios são restaurantes. É lá que o marisco sabe bem.
Ali já ou já ali, um ou dois quilómetros mais à frente, lá estava do lado direito a Vidrul, fábrica de vidro que produzia todo o tipo de garrafas e não só. Este nome trás lembranças de gente caricata que viveu ali perto. Uns metros adiante temos e do lado esquerdo a serração do Sr. Matos e ao lado a casinha para onde foi viver a família quando chegou do Puto (Matrópole).
O calor era muito e andar em tronco nu era o mínimo. O mar não era muito longe dali. Uma lagoa pantanosa para onde os patos voavam para se refrescar e logo a seguir o mar.
Por falar em tronco nu, foi assim que muitos portugas andaram os primeiros dias após ter lá chegado. Apanharam escaldões nas costas que chegaram a ficar todas em ferida. Fui um deles. Não estavam ainda curadas estas feridas, e o meu pai pôs-me a trabalhar em Caxito a mais ou menos cinquenta ou sessenta quilómetros dali. A viagem foi demasiado dolorosa, pois não conseguia encostar-me a coisa alguma devido à inflamação nas costas!
   
Já se avista a ponte do Panguila sobre uma lagoa pantanosa. Do lado esquerdo muitas hortas e do direito o desvio para Quinfangondo. Por falar em Quinfangondo, veio-me à lembrança o cacusso ou bagre, peixe do rio grelhado no restaurante do Letra junto ao rio Bengo, acompanhado de muitos finecos geladinhos. É que sabiam bem! Embora com certo sabor a terra do fundo do rio!
Num determinado dia e mês de um ano qualquer que não posso precisar, lembro-me perfeitamente ter descido na companhia de outros rapazes à lagoa do Panguila para apanhar peixes. Viveram estes peixes muito tempo num aquário na nossa casa de Luanda.
Correu a história que numa daquelas hortas, a do Sr. Manuel, uma giboia muito grande lhe comeu o cão. Ouviu os latidos aflitivos e foi procurá-lo. Encontrou a giboia a fazer a digestão do seu fiel amigo. Ficam inertes quando estão naquele estado digestivo. Foi fácil ao Sr. Manuel matá-la com um simples canivete e retirar do seu interior o seu cão já morto. Possivelmente ainda aproveitou a pele da giboia para curtir, pois era muito apreciada para vários tipos de artigos.
   
Continuamos e atravessamos a dita cuja ponte. Rolamos uns quilómetros largos naquele asfalto quente. O sol ia alto e já começava a aquecer o tejadilho do carro. Percurso plano e paisagem ressequida. Capim baixinho e terra barrenta bem à vista. De quando-em-vez, fornos de cal. Fornos que atingem altas temperaturas para transformarem pedra calcária que lá havia em abundância em cal viva ou carbonato de cálcio pronta a ser usada nas suas mais variadas aplicações. Esta cal era abafada em barris hermeticamente fechados para não se correr o risco de oxidar transformando-se em pó, cal morta ou óxido de cálcio.
Porto Quipiri à vista. Esta localidade está em festa. É dia de Nossa Senhora da Muxima.
Paragem obrigatória. O farnel para o pic-nic está na mala do carro. Um Volkswagen carocha com uma mala muito pequena. O motor é atrás e à frente resta pouco espaço para a bagagem. Comprei este carro usado e mandei-o pintar de um vermelho claro. Saiu cor de telha. Até ficou giro. Gostava muito daquele carro. Ainda hoje gosto dos carochas. Consome muito mas a gasolina é barata.
Num país quente tropical, onde se está mais perto do sol, as bebidas sobrepõem-se às comidas. Fruta, fiambre, queijo, panadinhos e passarinhos fritos bem ajindungados. Ninguém dispensa o gindungo. Assim as bebidas escorregam muito melhor.
Mesmo de relance o que é que se vê? Muita bebida e pouca comida. Os recipientes estão cheios de gelo moído a refrescar a cerveja nocal, as coco-piñas, os sprits e a água. O gelo foi obtido na Frigor, para não ter que ir à fábrica da Pepsi nos Coqueiros junto ao estádio. Ficava fora de mão. Sintonizamos o rádio em ondas curtas para ouvir o relato do jogo Benfica-Sporting no estádio da Luz. Aida estava 0-0 quando deixamos de sintonizar a Emissora Nacional. Ouvir o relato do futebol, era uma forma de nos lembrarmos da nossa santa terrinha.
Porto Quipiri tem pouco mais que uma dúzia de casas rés-do-chão. Tem um lindo jardim onde fizemos a paragem para o piquenique. Ao lado da igreja um café/restaurante que tem tudo. Mais parece uma área de serviço numa autoestrada da Europa! Café, restaurante e armazém de variadíssimas coisas. Um organizador das festas encaminha os veículos para um descampado que serve de parque de estacionamento. Estacionamos aqui. Uma pequena mas espessa nuvem de pó vermelho dançava a pouca altura, cada vez que pisávamos aquele solo.
Ah já me esquecia! Neste jardim junto à ponte sobre o rio, há atualmente um monumento estranho. Um sopé redondo com crianças á volta segurando uma plataforma também redonda com um enorme crocodilo mastigando um cifrão. As crianças parecem odia-lo, pois aquele crocodilo representa o capitalismo americano, combatido ferozmente pela propaganda. Chamam-lhe o “Crocodilo Dande” crocodilo do rio Dande. Há uma analogia com Crocodilo Dundee, o filme americano e de certa maneira símbolo daquela potência. Gostava de ficar mas não posso. Tenho de continuar a viagem. Uma ponte sobre o rio Dande, separa Porto Quipiri da Fazenda Tentativa. Vamos atravessar esta ponte.
   
Depois de atravessar a ponte, temos à nossa esquerda uma picada, estrada de terra batida que nos levaria à Barra do Dande. Mas não vamos por aí. Seguimos para a direita na estrada principal em direção a Caxito. O piso é uma mistura de asfalto e maquedame. Do nosso lado esquerdo, quilómetros e quilómetros a perder de vista de cana do açúcar. Do lado direito, plantações muito alinhadinhas de palmeiras para a produção de dendém e deste para a extração de óleo de palma. Devo referir que o óleo de palma, além de fazer parte da dieta dos angolanos, é uma excelente matéria-prima para a produção de sabão. Da sua semente o coconote, produz-se um fino e ótimo óleo. A espaços vêem-se saguis, macacos minúsculos saltando de palmeira em palmeira. Muitas destas palmeiras começaram a morrer, porque os locais extraem de uma forma selvagem a sua seiva para fabricarem o marufo, bebida altamente alcoólica. E por álcool eles …
Fomos andando e chegamos à fábrica do açúcar. Várias carruagens chegam de vários pontos da fazenda carregadas com cana chamuscada. E chamuscada porquê? Porque antes de ser cortada, é feita uma queimada que só ardem as folhas. Aproveitamos para tirar das carruagens algumas canas para mastigar, engolir o suco doce e deitar o resto fora.
Uma vala de muitos quilómetros vinda da barragem das Mabubas, serve para regar a cana desta fazenda.
Depois duma pequena paragem continuamos o caminho. Sessenta quilómetros depois que saímos de Luanda, chagamos a Caxito.
   
Caxito traz-me muitas lembranças. A vila simpática e engraçada. Hoje cidade capital de província.
Alguns anos antes com pouca mais de dez anos, o meu pai pôs-me a trabalhar num dos muitos estabelecimentos comerciais desta terra num amigo dele. Apesar de tudo, criei muitas amizades e bons amigos, quase todos de cor. Lembro-me perfeitamente que o estabelecimento tinha um quintal nas traseiras. Neste quintal havia várias árvores de fruto: Mamoeiros, bananeiras, mangueiras e goiabeiras. As goiabas maduras, cor-de-rosa por dentro, é que eram deliciosas!
Uma cena caricata aconteceu-me por essa altura. Foi em Caxito que aprendi a andar de bicicleta e foram aqueles amigos de cor que me ensinaram. Numa destas aprendizagens, estavam vários deles a segurar a bicicleta para me poder equilibrar em cima dela, senão quando me largaram. Indo eu muito bem e direitinho sem saber que ia só, quando olho para trás e vejo que eles estão longe, deu-me uma tremedeira seguida de um valente trambolhão que me deixou algumas escoriações no corpo. Mas valeu a pena porque a partir dali não mais precisei de ajuda.
A vala que vinha das Mabubas para a tentativa, passava mesmo junto à vila. De vez em quando, íamos lá tomar banho. As águas eram rápidas, barrentas e arrastavam vários resíduos. Era tal a força da corrente, que a nadar no sentido contrário não se saía do sítio! Devido às impurezas daquela água, apanhei uma bilharziose que se manifestou mais tarde. Descobri por causa duma anemia que aquela me provocou.
A minha lavadeira vivia numa sanzala próxima. Fui a casa dela várias vezes. Gostava muito de mim. Eu era o “monamindele”, menino branco que se dignava conviver com ela. Ensinou-me algum dialeto.
Uma sanzala é um grupo de cubatas de pau e pique. Os paus eram revestidos de barro. As ruas na sanzala eram espaçosas e sempre limpas. Cada morador varria constantemente a sua zona. As cubatas eram todas iguais. Uma sala com uma porta para o exterior e outra para o quintal. Dois quartos, um de cada lado desta saleta.
O homem da casa tinha duas mulheres, a minha lavadeira e outra. Cada uma no seu quarto. O homem ora dorme com uma ora com outra. As mulheres davam-se bem e criavam os filhos uma da outra em comum.
   
A luz elétrica que iluminava a vila era fornecida pela Barragem das Mabubas que estava um pouco mais a norte.
Os camiões passam carregadinhos de mangas vindos da fazenda do Libombo na estrada do Ambriz. Os motoristas paravam para refrescar as goelas e nós aproveitávamos para sacar o máximo de mangas. Não se importavam. Eram toneladas e toneladas que transportavam todos os dias!
Aquilo foi bom mas tudo tem o seu tempo.
Um dia já mais crescidote, regressei a Luanda e nesta cidade fiquei a trabalhar, estudar, jogar basquetebol e viver intensamente a minha vida.
Esta viagem não é mais que uma romagem de saudade. Revisitar os meus locais de menino-e-moço, jovem adolescente e adulto na Angola do meu coração.
Esta viagem acabou mas outras se seguirão por essa Angola profunda. Vou voltar a escrever sobre este assunto. Não sei quando mas vou. Me aguardem.
Até sempre.




    À LUANDA QUE CONHECI
                                                                                                                   
LUANDA EM POESIA                                                                                                                                                                       NEONS NA CIDADE DE LUANDA

Luanda debruçada sobre o mar, onde as ondas uma a uma, vêm desfazer-se em espuma, a tua ilha beijar...

LUANDA...


Luanda debruçada sobre o mar
onde as ondas uma a uma
vêm desfazer-se em espuma
a tua ilha beijar

Luanda da fortaleza em pendor
na expressão de uma aguarela
que o artista com fervor
pintou majestosa e bela

Luanda do batuque pela noitinha
e as acácias em flor
és tu Luanda rainha
senhora do meu amor.
Canção do Duo Ouro Negro.

MÃE LUANDA


Terra vermelha,
Cor do sangue da gente que te percorre
Nos emaranhados de que te fazes,
Livre como o curso do rio de águas amenas e calmas
Onde bebes a saudade e celebras a vida.

Bar aberto
Nas bermas da ternura do teu povo,
Em cada sorriso dos teus filhos,
Mãe de esperanças sem desgostos
Que ao teu balcão a tristeza não se bebe.
Espera-se a madrugada de olhos postos no azul
De mãos dadas com o arco-íris das monções.
Sempre minha, sempre mãe, sempre Luanda
Jaber

 

 

AMANHÃ...


Amanhã, vou acender uma vela na Muxima
Amanhã, levo para os meus santos flores de acácias
Amanhã, peço para toda gente que me estima
Amanhã, peço para o novo dia que virá (amanhã)

Amanhã,
Peço ao meu lema que faça com que eu volte
A morar na terra amada que me viu nascer

Quero chegar de madrugada
Para ver o sol raiar
Quero chegar de madrugada.....hoo
Para ninguém ver, se eu chorar

Vou andar por aí, com o meu violão
Vou à Mutamba, tomo um machimbombo qualquer
Por "ma curia a naqui", sou igual a toda a gente
Na linha da Terra Nova, só paro lá no musseque
Com a minha gente, entre mufete e conversa
E de madrugada, com Catembe vou prá Puita
Zag, zag, zag, zag ........ Zanga-zuzi até cair ... até cansar....
Aiuehh.. Que é que vai fazer amanhã meu irmão?!
Duo Ouro Negro

 

 

LUANDA TEM......


Luanda tem…
Tem o Sol que nos aquece
E que o coração estremece
Quando sente o seu calor
Tem ocaso de magia
Quando acaba mais um dia
De trabalho e de suor

Luanda tem…
Tem a Lua feiticeira
Que encanta à sua maneira
Nas vielas da Sanzala
Com um luar sempre etéreo
Que nos enche de mistério
Quando a noite nos embala

Luanda tem…
Tem estrelas encantadas
Que em noites bem fadadas
Brilham como diamantes
E nos fazem sentir então
A ternura e emoção
De encontro de amantes

Luanda tem…
Tem o mar… azul profundo
Grande tesouro do mundo
Onde Neptuno se encosta
E a sua Ilha tão bela
Mais parece uma aguarela
Que Deus guarda como amostra

Luanda tem…
Tem a Kianda brejeira
Que bem à sua maneira
Milongo nos põe na alma
Tem o som lindo do quissanje
Que mesmo ouvido de longe
Nos enleva e nos acalma

Luanda tem…
Tem Marginal deslumbrante
Com ondulado de serpente
E feitiço tão profundo
Que cativa e faz vibrar
A paixão que anda no ar
Por este lugar do mundo

Luanda tem…
Tem som quente de rebita
Tem a cor alegre da chita
Com que se faz o kimono
Tem a Saudade com ela
Que cintila como estrela
E me tem tirado o sono…

Luanda tem….
Letinha - 2/05/2007

 

 

P’RA QUEM VIVEU EM LUANDA...


"Nasci branco de segunda
Calcinhas ou caluanda
Nasci com os pés no mar
... em São Paulo de Loanda

Brinquei de pé descalço
Em poças de águas castanhas
Tive lagartas da caça
Não escapei às matacanhas

Comi manga sape-sape
Fruta-pinha tamarindo
Mamão a gente roubava
No quintal do velho Zindo

Pirolito que pega nos dentes
Baleizão, paracuca
E carrinhos de rolamentos
Numa corrida maluca

Tinha o Gelo, tinha a Biker
Miramar e Colonial
O Ferrovia, o Marítimo
Chás dançantes no Tropical

O N'Gola era só ritmo
O Liceu uma lenda
Kimuezo e Teta Lando
E os Ases do Prenda

Havia velhas que fumavam
E velhos com ar de sábio
Enquanto novas músicas
Se insinuavam na rádio

"E a cidade é linda
É de bem-querer
A minha cidade é linda
Hei-de amá-la até morrer"

Quem não estudou no Salvador?
Quem não se lembra do Videira?
E das garinas de bata branca
Nossas colegas de carteira?

Depois havia o Kinaxixe
Futebol era nos Coqueiros
Havia praias, um mar quente
Savanas imensas, imbondeiros

E havia o som do vento
O cheiro da terra molhada
As chuvas arrasadoras
O fogo das queimadas

E havia todos os loucos
Do progresso e da guerra
A Joana Maluca, o Gasparito
A desgraça daquela terra

Nasci branco de segunda
Calcinha ou caluanda
Nasci com os pés no mar
Em São Paulo de Loanda"
(Nicolau Santos, um kaluanda)

 

 

LUANDA MINHA AMADA


Luanda, minha amada
como eras bela quando te conheci!
Trazias no rosto o cheiro da maresia.
Com teu aroma suave me embeveci.

Um dia parti percorrendo teu corpo,
descendo suavemente pelos teus rios
inebriada pela beleza do teu dorso
tomada pelo fogo dos sentidos.

Ainda era menina ingénua
mas cedo te desejei para mim,
deitar-me no teu seio, nua
beijar-te toda com frenesim.

Nada do que te disse esqueci.
Palavras doces sussurradas
que ternamente te dirigi
enquanto me olhavas.

Dos teus amantes tenho ciúme.
Daqueles que entram por ti adentro
com violência para possuir-te
destruindo o teu sonho.

Ao teu coração quero pertencer,
acreditar que o teu sonho não morreu,
que a paz volta com o amanhecer
e que jamais esqueceremos o nosso amor.
(Alexandra Caracol)

 

 



      Luanda Antiga                                                             Danças Africanas                                                 Luanda está linda!                                                 Semba
        Luanda de outros tempos - Ligar o som       Grupo Kandimba - Ligar o som               Duo Ouro Negro - Ligar o som                   Dança Angolana - Ligar o som




    ANGOLA!... ANGOLA!...

SER ANGOLANO É MEU FADO

Ser Angolano é meu fado, é meu castigo.
Branco eu sou e pois já não consigo
Mudar jamais de cor ou condição…
Mas, será que tem cor o coração?

Ser Africano não é questão de cor
É sentimento, vocação, talvez amor
Não é questão nem mesmo de bandeiras
De língua, costumes ou maneiras…

A questão é de dentro, é sentimento
E nas parecenças de outras terras
Longe das disputas e das guerras
Encontro na distância esquecimento.
Neves e Sousa (Pintor e Poeta Angolano)



SIMPLESMENTE DELICIOSO

"Quando te disse
que era da terra selvagem
do vento azul
e das praias morenas...
do arco-íris das mil cores
do sol com fruta madura
e das madrugadas serenas....

das cubatas e musseques
das palmeiras com dendém
das picadas com poeira
da mandioca e fuba também...

das mangas e fruta pinha
do vermelho do café
dos maboques e tamarindos
dos cocos, do ai u'é...

das praças no chão estendidas
com missangas de mil cores
os panos do Congo e os kimonos
os aromas, os odores...

dos chinelos no chão quente
do andar descontraído
da cerveja ao fim de tarde
com o sol adormecido...

dos merenges e do batuque
dos muquixes e dos mupungos
dos embondeiros e das gajajas
da macanha e dos maiungos.

da cana doce e do mamão
da papaia e do caju....
tu sorriste e sussurraste
"Sou da mesma terra que tu!"
Ana Paula Lavado (In " Simplesmente delicioso " do livro " Um beijo sem nome")



A GALINHA D'ANGOLA

Coitada, coitadinha
Da galinha d’Angola
Não anda ultimamente
Regulando da bola

Ela vende confusão
E compra briga
Gosta muito de fofoca
E adora intriga

Fala tanto que parece
que engoliu uma matraca
E vive reclamando
Que está fraca

Tou fraca! Tou fraca! Tou fraca! Tou fraca! Tou fraca!
Vinicius de Moraes, Toquinho





    O BROCHE

BROCHE - ALFINETE DE PEITO

Broche é um acessório (ou joia) decorativo projetado para ser presa ao vestuário. Ela é usualmente feita de metal, frequentemente prata ou ouro, mas em alguns casos, bronze, aço ou algum outro material. Broches são frequentemente decorados com esmalte vítreo ou com pedras preciosas e podem ser utilizados unicamente como ornamento, ou também ter uma função prática de segurar ou prender as pontas de um manto, por exemplo.
Muitas vezes são usados a fim de se exercer publicidade e propaganda distribuídos como brindes, esses são relativamente de baixo custo devido a serem fabricados de aço, ferro ou alumínio e terem apenas plástico e papel na sua "face".
Eram muito usados na Antiguidade entre os romanos e recebiam o nome em latim de fibula.
Fonte de ajuda: Net

PREÂMBULO

Não matem o broche…
O broche está subvalorizado. Não matem o broche. Não façam dele uma coisa insidiosa e percebam que ele é mais do que apenas a vontade de ter um orgasmo.
O broche não é um recurso. Não é alguma coisa a que devamos recorrer quando mais nada funciona ou quando a única parte do corpo que mexe é a imaginação. O broche não merece o desleixo e o cansaço. E muito menos a complacência dos amantes. Amigo de mão e de boca, o broche é mandado para a conversa como quem se contenta com uma lata de atum sem perceber que ali está o melhor do caviar iraniano. E nesta confusão de sabores não há género. Tanto é o gajão macho que se entrega e se torna madraço, como o “grelame” fêmeo que age de forma pouco caprichosa perante a preguiça.
O melhor exemplo que conheço de maus tratos infligidos sobre o broche dá-se em início de dança. Quando a mulher faz notar que ainda é cedo para o sexo, que se conhecem há pouco tempo, que não, ela não é como as outras, ou qualquer outra ideia sobreposta à evidência… «não me apetece fo… fazer amor, nem me apetece explicar-te porquê», o macho, na sua imensa generosidade, faz saber que não tem mal, que ele também não é como os outros, ou qualquer outra ideia sobreposta à evidência «posso já não fo… fazer amor, hoje mas um broche terei sempre».
Portanto, um broche é um “second best” em vez de um “second to none”. É o Mourinho do Barcelona, o Goebbels, o adjunto. Em casos extremos, é até o treinador de bancada. O que manifesta intenção mas, no fundo, não apita nada.
Matar o broche é também não exigir um mi… Obviamente que caminham juntos, não obrigatoriamente ao mesmo tempo ou de mão dada, mas sempre, sempre pelo mesmo traçado. É simples. Dar e receber, troca por troca. A quantas de vós, estimadas súbditas, vos foi feito um mi… depois de terem feito um broche? Quantas vezes o vosso orgasmo e o vosso prazer foi substituído pelo cigarro costumeiro ou pela aniquiladora frase «que bom... Bolas, agora fiquei mesmo cansado...». Tudo isto é matar o broche. Neste caso, é fuzilá-lo por defeito do nosso próprio prazer. Porque ele as há que lhes tomam raiva e acabam por exterminá-lo por despeito. E compreende-se.
Fonte de ajuda: Net

PEQUENO CONTO - O BROCHE

Luanda final dos anos sessenta. Corre ao ano de 1969.
Está um lindo dia de sol. Está calor mas não é aquele calor abafado e sufocante, prenunciador de tempestades tropicais. As acácias não tardam a aparecer cobertas de flor, espalhando o seu perfume pela cidade.
O Tony assustou-se, saiu sangue na expetoração e isso é mau, poderá ser doença pulmonar. Foi ao médico da empresa e este após exame superficial disse que não era nada. Mas um mau pressentimento não o deixou descansado.
Depois de exames mais rigorosos, foram detetadas lesões nos pulmões. Longos períodos de tratamento esperavam-no. Muito descanso, muitas e muitas consultas e muitos medicamentos, irão tomar conta da sua vida. Também muitas consequências negativas: A doença em si, as fragilidades físicas, a perca do emprego e sobretudo a derrota psicológica que aos poucos irá minar a sua mente.
Muitos projetos e anseios do futuro imediato serão adiados por tempo indeterminado. O mundo acaba por desabar sobre a sua cabeça. As esperanças de cura ainda estão numa percentagem bastante baixa. O tempo vai passando demasiado devagar, e os progressos são invisíveis, pelo menos aparentemente. Os comprimidos e as injeções intramusculares são mais que muitos. Sente-se intoxicar dia-a-dia e as nádegas como um crivo. Ora uma ora outra, são todos os dias picadas com injeções. Os progressos de recuperação não se veem.
Um dia veio a primeira hemoptise, a segunda e outras. A morte ronda a vida do Tony. Aos vinte e poucos anos está a perder a esperança de vida. Mas uma forte determinação e vontade de viver ponha-o muitas vezes a pensar e de vez em quando em voz alta. Essa voz interior diz-lhe: Não se pode morrer com esta idade. Há muita coisa para realizar, mas sem tempo e sem futuro. Conta apenas o presente. Não há como que fugir disto.
Num outro dia, uma hemorragia mais forte, teimou e consegui romper através da boca, quase o derrubava. Além da perda de sangue, também tinha dificuldades em respirar. A morte esteve mais próxima. Ficou tão fraco e fragilizado, que teve de ser transportado de urgência ao hospital.
Enquanto os familiares tratam dos trâmites no guichê, o Tony fica à porta olhando para o exterior, focado no verde das acácias da avenida, que ainda não estão floridas. Está nesta contemplação, quando de repente aquele verde se transforma numa “chuva” como a de uma televisão mal sintonizada e perde os sentidos.
Quando veio a si, sente uma dor forte nos braços. Um enfermeiro de cada lado apertam-no fortemente para o manter de pé. Não é fácil de segurar um corpo morto!
- Larguem-me - disse ele irritado.
Estavam realmente a magoá-lo bastante.
Naquele estado, fica internado.
Para manter o sangue mais ou menos coagulado ou menos líquido nas veias, esteve uma semana, noite e dia com um saco de gelo no peito e pedras de gelo na boca. Foi horrível, ter o peito e boca congelados durante aqueles dias, pode-se dizer que foi mesmo um martírio. Quando a vontade de viver é mais forte, fazem-se todos os sacrifícios.
Inicialmente ficou numa enfermaria que estava completamente cheia. Tiveram de arranjar uma cama extra.
Os dias corriam tão devagar que pareciam eternidades.
Ao fim daquela semana, as melhoras começaram a aparecer e pouco tempo depois já andava a pé pelos corredores do hospital.
Nessa enfermaria, conhece o Avelino Costa, mais conhecido por AC, que também tinha caído na desgraça daquela doença. Este AC é um poeta e conta lindamente em verso a diferença entre ricos e pobres, e das migalhas desperdiçadas pelos ricos que alimentavam muitos pobres.
O Tony gosta do que lê e escreve uma prosa elogiando a sua poesia. Ficam amigos e consideram-se irmãos. Aquela amizade fraterna, iria prolongar-se por muitos e muitos anos.
Mais tarde, muitos daqueles doentes, foram transferidos para quartos de duas camas, um andar mais acima.
Uma amizade muito forte estabeleceu-se entre quase todos os internados daquele andar. As amizades na desgraça, conseguem ser sempre ou quase sempre mais fortes que em qualquer outra circunstância.
Passado algum tempo, ninguém mais naquele piso está acamado. Todo o mundo vai comer ao refeitório, andam pelos corredores e até podem sair de vez em quando para assar um ou dois dias com a família.
Aquele hospital, chamado de Pavilhão de Infectocontagiosas, tem três pisos:
No primeiro, aquelas doenças mais complicadas, como as hepatites e outras do foro mais contagioso. As visitas falam através de um comunicador.
No segundo piso, pequenas enfermarias, repletas de doentes com tuberculose, alguns em estado crítico.
No terceiro piso, gabinetes e consultórios médicos, refeitório e quartos com duas camas. Neste andar, os doentes são aparentemente pessoas saudáveis, mas por dentro tem os pulmões minados pelo bacilo de koke.
No extremo deste andar há uma sala de convívio, onde se pode passar o tempo, lendo jornais e revistas ou livros de um pequena biblioteca, e também vários tipos de jogos: cartas, damas, gamão e outros, além de poderem conversar uns com os outros.
Estas conversas, servem muitas vezes para cada um contar a sua história. Histórias de vida do antes, durante e após doença. Era quase sempre pedido a cada um que contasse como adoeceu e como veio ali parar. Necessidade de conhecer os erros que não podem dali em diante cometer ou repetir. A vida é feita de ensinamentos e é preciso aprender com os erros. Daí para a frente, muitos irão com certeza ser diferentes.
Em grupo ou dois a dois, cada um vai contando aos outros ou ao outro a sua história de vida e como chegou ali.
O AC era motorista de longo curso. Fazia milhares de quilómetros, palmilhando quase todo o norte de Angola através de estradas e picadas, em exposição contínua ao sol, ao vento, à chuva, ao calor e ao frio. Muitas vezes o camião fica enterrado em lamaçais, apanhado naquelas tempestades. Estas situações foram-se sucedendo e o corpo resistindo até onde pode. Era preciso abrir o vidro para poder respirar. Aquela exposição constante ao calor, vento e frio, acabou por o afetar do lado esquerdo. Um dia uma dor forte daquele lado, levou-o ao médico e a doença foi detetada. Foi empurrado para aquele hospital.
A sala de convívio vai de lado a lado de toda aquela parte do andar. Umas janelas muito amplas de todos os lados. Umas vistas privilegiadas daquele terceiro piso sobre toda a periferia do pavilhão. Todos os dias se veem perfeitamente os mortos a chegar do hospital central para a casa mortuária. O Instituto Universitário de Anatomia é ali ao lado. De-quando-em-vez, um ou outro cadáver, é transportado da casa mortuária para lá. Com toda a certeza para ser estudado pelos universitários do curso de medicina. Tudo isto e muito mais, é observado todos os dias. No topo do primeiro piso, é o sector da legião feminina. De longe-a-longe, uma espreitadela. Parecem todas boas, tal é a fome de mulheres que reina por lá.
Naquele dia o Manel morreu num acidente. Os seus familiares dançam e choram a sua morte junto à casa mortuária. O choro e as danças fúnebres estão ao rubro. Ai ué Manelelé ai ué. Pés descalços no chão, cantam e dançam naquela terra vermelha, cujo pó paira a meia altura. É aquela a sua forma de expressar os sentimentos tristes.
Ao fim de algum tempo, todos naquele piso sabem interpretar análises e assim saberem como está o interior do seu corpo. Quantidade certa de globos vermelhos ou brancos, velocidade de sedimentação para testar os níveis de infeção e outros.
Todos os hóspedes daquele pavilhão, foram-se tornando cada vez mais frágeis e muito mais sensíveis. Quase todos perderam por afastamento, amigos, namoradas e alguns até familiares. O medo de serem contagiados afastava-os. A partir de certa altura do tratamento, a doença deixa de ser contagiosa, mas as pessoas não sabem. O afastamento é gradual e vai acontecendo, ficando reduzidos a um ou outro familiar. Isso dói muito, tornando os portadores dessa doença mais sensíveis e dando para ver quem é realmente amigo. Para muitos este estigma é terrível. A seleção faz-se.
O Tony, acunhado de “Antoine” por ter a mania dos francesismos, apanhou um resfriado. Pediu um fim-de-semana e foi com um grupo às “meninas” ao Bairro Operário. Este bairro é composto de casas térrias de madeira. As meninas disponíveis estão à janela com uma boa postura e o melhor sorriso, como mercadoria na montra à espera que a comprem! O dinheiro tinha de ir contado. Há o perigo de serem roubados se aparecerem os chulos. Devido à abstinência forçada, um orgasmo não é suficiente e há vontade de continuar.
- O preço é só para uma, se continuares pagas outro tanto – diz a gaja.
- Toca a saltar – acrescenta.
O chão é de terra batida e fria. O pénis ainda está ereto e o resultado… Deitou uns dias depois pus cor-de-rosa por este. O médico é chato e autoritário, mas o “Antoine” tem de lhe por o problema. Aproveitou a consulta semanal e… receitou-lhe britacil. Ao fim de quinze dias estava bom.

O “TRABUCO”

Figura típica e castiça que lá foi parar.
O andar ou caminhar do Trabuco, é um pouco como que aos empurrões. Segundo ele, teve quando criança, a poliomielite (paralisia infantil), nos dois membros inferiores. Daí aquele andar. É muito falador e conta histórias incríveis.
Mais à frente ele vai contar algumas destas histórias.
Numa das mesas, o “Trabuco explica as regras que serão aplicadas no campeonato de sueca. Quem perde salta fora. Após esta explicação, alguém pergunta: - Como te chamas e como vieste cá parar?
- Sou o Trabuco.
- É mesmo esse o teu nome?
- Não, é uma alcunha, mas por agora chamo-me assim.
- Como vim parar aqui? É uma longa história. Não sei por onde começar!
- Começa pelo princípio, ora bolas!
Então começou a contar a sua história.
Estabeleceu-se de imediato um silêncio em toda a sala, que nem uma brisa que entrava pela janela, desfolhando os jornais em cima das mesas, interrompeu.
- Ora bem, sou natural de cá, Luanda, e a minha família vive na Praia do Bispo. Trabalhava numa clínica. Era o chefe administrativo e também o caixa. Meti-me em altas rodas, acompanhando gente da classe muito alta: Médicos, engenheiros, advogados e empresários diversos. Frequentávamos locais onde se paga a peso de ouro. A minha pedalada depressa se esgotou, mas eu estava a gostar daquelas andanças. O dinheiro não colaborava nada, pois acabava rapidamente. Não tive outro remédio senão recorrer aos dinheiros da clínica. E então “moi meme” socorria-se de umas notas normalmente milonas. Meti a mão na massa, como normalmente se diz. Primeiro esporadicamente, e depois mais amiudadamente. Esta situação arrastou-se por muito tempo.
É só um empréstimo por pouco tempo dizia a mim próprio para me consolar. Mas não, não foi assim. Ao fim de bastante tempo nisto, um buraco de milhares registava-se no caixa. Não tive hipóteses de o tapar. Deixei andar e passaram-se meses e anos nisto. Até que um dia a empresa foi selecionada pela Fazenda (Finanças) para ser inspecionada por causa do IVA. Azar o meu. Os fiscais caíram na Clínica e descobriram o buraco.
- O que aconteceu? Perguntaram algumas vozes.
- Quem foi e quem não foi? Era a pergunta que andava no ar na empresa e rapidamente chegaram a mim. Fui apanhado!
Dois médicos eram sócios e donos da clínica. Um deles pegou prontamente no telefone para chamar a polícia.
Parou um pouquinho para respirar, prosseguindo logo a seguir.
- Rolava muito dinheiro, pois faturavam bem e vendiam as amostras gratuitas de medicamentos oferecidas pelos laboratórios. Isto era crime mas eles estavam-se nas tintas. Tentei impedir que chamassem a polícia, dizendo que sabia a origem de todos os “pós” que caiam naquela empresa. Alegadamente referia-me às amostras gratuitas e não só. Como profissionais da saúde, nunca quiseram saber das ilegalidades em que andavam metidos e chamaram mesmo as autoridades e eu fui preso.
Apresentei queixa contra eles. Um deles assumiu todas as culpas e foi impedido durante dois anos de exercer a profissão e ficou com residência fixa. O outro continuou o negócio e a clinica nunca chegou a fechar.
Conclusão, fui parar à choldra. A falta de condições e a minha condição física frágil, provocou-me uma doença pulmonar. É por isso que estou aqui. Estou aqui numas condições especiais, sob prisão, e ainda não acabei a pena.
- Temos de ir descansar. Depois acabas a tua história, se é que ainda não acabou! – Disse um dos ouvintes.
Um grupo grande de doentes descansa na varanda numas camas de cura. São assim chamadas. Uma espécie de espreguiçadeiras construídas de forma especial para se adaptarem ao corpo das pessoas.
O Trabuco acredita piamente em espíritos e quer contar mais uma história da sua vida.
- Ora conta lá – Ouviu-se uma voz.
Inicia mais uma das suas histórias.
- De vez em quando falo com o espírito do meu irmão.
- Acreditas em espíritos?
- Claro que acredito, porque eles existem!
Dizia isto com tal convicção, que não lhes restava respeitarem e ouviram as suas histórias.
- O meu irmão morreu com leucemia aos catorze anos. Eu era muito apegado a ele e senti muito a sua morte. Ainda hoje sinto a sua falta. Quando estou preocupado, preciso de alguém para partilhar essa preocupação. É quase sempre com o seu espírito que partilho esses momentos. Aparece sempre para me ajudar.
Pequena pausa e...
- Há uns tempos atrás, convivi forçadamente com um fulano, que por sinal já morreu, de quem não gostava mesmo nada, nem ele de mim. O seu espírito de vez em quando persegue-me para me azucrinar a existência. O que me vale, é que o espírito do meu irmão aparece sempre em minha defesa.
- Não gozem que isto é verdade!
- Ok, Ok, continua.
- Não consigo esquecer a morte dele. Estava a conversar comigo quando se ficou. Para mim foi um choque. Aquela imagem não me larga o tempo todo.
- Por agora não me apetece falar mais deste assunto. Vou descansar um pouco na cama.
E foi-se embora.
O quarto do Zé Policia é paredes meias com o do AC. Em alguns períodos junta-se lá um grupinho a conversar. Fala-se de tudo e de nada. Ficou a saber-se, que este policia veio para a Angola numa comissão de serviço. Sabe-se lá porquê, foi apanhado por aquela doença. Esta entrava sem pedir licença, e arruinava a vida de muita gente. Tinha deixado a mulher e dois filhos na metrópole. Não teve coragem até ali para lhes contar que estava doente.
Para muitos era um drama assumirem perante outros que tinha contraído aquela doença. Alguns viam os amigos, as namoradas e até familiares afastarem-se.
Para muitos deles, era um estigma ser tuberculoso.
No curriculum futuro da maioria, não iria constar este passado. Muitas portas fechavam-se pelo facto de transportar ou ter sido apanhado por esta maleita.
Uma noite já para lá das vinte e quatro horas, foram todos acordados com gritos vindos do fundo do corredor. Doentes e enfermeiro apareceram para ver o que se passava. À porta do último quarto ao fundo do corredor, o Trabuco estava caído no chão com um canivete na mão, e no quarto o Daniel, único ocupante naquela altura, estava sentado na cama, muito assustado.
- O que é que se passou? - Perguntou o enfermeiro.
Nem um nem outro souberam contar ao certo. Estavam os dois bastante assustados e muito confusos.
Mais tarde, alguém encarregar-se-ia de perguntar ao Trabuco, como foi parar aquele sítio, atravessando aquela hora da noite quase todo o corredor!
Voltaram todos para as suas camas para passar o resto da noite. Pela manhã andava muita curiosidade no ar para saber o que se passou.
Aparentemente aqueles doentes eram pessoas saudáveis, só que por dentro estavam minados, mas isso não se via a olho nu. A cura seria sempre uma questão de longo prazo, deixando marcas psicológicas em cada um. Não adiantava ser impaciente.
Quando apanharam o Trabuco a jeito, apertaram com ele para que contasse o que se tinha passado naquela noite.
Respirou fundo e muito devagar começou a contar:
- Eu acho que sou sonâmbulo. O espírito do meu inimigo, aproveitou-se e foi ao meu quarto provocar-me para apunhalar o Daniel no último quarto ao fundo do corredor. Praticamente arrastou-me até lá. Fui à gaveta, peguei no canivete que uso para descascar a fruta e lá fui pelo corredor adiante atrás dele. Quando à porta do quarto me preparava para entrar e executar a tarefa, apareceu por trás o espírito do meu irmão, empurrando-me provocando a minha queda, e assim não levar por diante os desígnios do espírito mau. Mais uma vez apareceu para me ajudar. Ao cair gritei, assustando o Daniel e acordando toda a gente. Foi isto que se passou.
Alguns risos mal disfarçados, irritaram-no, pois para ele, aquela é a verdade das verdades.
Há que respeitar as suas crenças!
Num determinado dia, aquele pavilhão foi invadido por estagiários do curso de enfermagem. Aqueles doentes foram as suas cobaias. Todos o fizeram do bom gosto e nasceram ali algumas amizades com os futuros enfermeiros ou enfermeiras.
Os dias continuavam a deslizar de uma forma demasiado lenta. Os minutos pareciam horas e as horas pareceriam dias!
Deram por falta do Trabuco, mas pensou-se que teria ido a alguma consulta externa. Esporadicamente acontecia com alguns.
Apareceu um pouco tarde e não houve tempo para conversas. Teria de ficar para o dia seguinte.
Logo pela manhã e depois da ronda do enfermeiro para dar os medicamentos e aplicar as injeções, assim como depois de todos terem tomado o pequeno-almoço, juntaram-se na sala de convívio para aí interrogar o Trabuco.
Tirando estes delírios, pouco mais havia para fazer.
Quando se proporcionou, choveram perguntas.
- Então, vais ou não contar onde foste ontem?
- Calma, já vos conto. Disse isto com um sorriso mal disfarçado.
E começou devagar muito pausadamente medindo as palavras:
- Como se aperceberam, ontem esteve um lindo dia de sol. Apeteceu-me um pouco de liberdade. Dei um pequeno passeio à baixa. Não fui a pé. Além do calor, é um esticão. Saí sorrateiramente. Na situação em que me encontro aqui, não adiantava pedir. Se tivesse de o fazer, inibia-me a vontade e seria com toda a certeza, um não. Com alguns trocos no bolso, fui para a paragem e apanhei o maximbumbo para a Mutamba. Estava cheio, apenas um lugar livre mais ou menos a meio. Uma senhora de meia-idade iria ser a minha companheira de banco naquela pequena viagem. Deixou-me o lugar junto à janela.
Luanda está linda! As acácias em flor dão uma beleza impar a esta cidade. Os meus olhos enxergaram tudo por onde passava. Sentia-me bem com a liberdade que desfrutava. Rapidamente chegamos à Mutamba e todo o mundo começou a sair. Quando me preparava para sair também, aquela senhora de meia-idade pôs-me a mão no ombro e não me deixou levantar, gritando bem alto:
- Ladrão, ladrão, dizendo isto virada para mim! E continuou:
- Roubou-me o broche de diamantes que trazia aqui no peito que me custou trinta contos!
- A senhora está enganada, não roubei nada – repliquei.
- Chamem a polícia, chamem a polícia – gritava muito alto.
- Fiquei deveras assustado. Queria tudo menos a polícia. Estou aqui sob prisão, saí sem autorização. Imaginem a minha situação e como fiquei preocupado!
- O que é que fizeste? - Perguntou alguém.
- Bem, a polícia apareceu. A senhora dizia que a roubei e eu dizia que não. Não saiamos disto. Fomos os dois parar à esquadra. Ela a afirmar e eu a negar, e o tempo ia passando. Até que a certa altura o polícia perguntou à senhora:
- Não o teria deixado em casa?
- Não, eu trazia o broche no peito - replicava a senhora.
- Não quer ligar para casa para saber se está lá - sugeriu o polícia.
Com alguma relutância lá ligou.
- Está Maria, vê no guarda-joias que está no meu quarto, se está lá o meu broche de diamantes - disse ela ao bocal do telefone e passados uns segundos, a voz do outro lado da linha disse que sim, estava, pelos gestos de cabaça que a fulana fazia.
- A senhora desfez-se em desculpas e eu só queria sair dali antes que o polícia me identificasse. Se sou apanhado estou tramado.
Resolvido o problema, mandou-nos embora. Já fora da esquadra, a senhora continuou a pedir-me encarecidamente que a desculpasse e para me compensar pelo incómodo puxou duma nota de vinte paus.
- Minha senhora, por amor de Deus! Pensando que achei pouco, sacou uma de cinquenta escudos. Fiz uma careta e pensei: Esta pensa que compra a minha dignidade com uma nota de cinquenta! Como hesitei, acenou com uma milona (Mil escudos). Eu estava teso e aquela nota fazia-me um jeitão do caraças. Por breves instantes pensei onde iria com aquela milona. Passaria no Baleizão e pedia uma daquelas cassatas de gelado de vários sabores e regalava-me. Ou então no Amazonas que até é perto da esquadra, e comia uns camarões médios com muito gindungo e bebia uns canhangulos ou umas cucas geladinhas. Também pensei na Biker e na Portugália. Aí comia umas tapas de carnes variadas e matava a sede com uns finecos de Nocal ou Eka. Mas também podia ser uma daquelas sanduiches espetaculares no Polo Norte e um sumo multisabores num copo gigante.
Tive de voltar rapidamente à realidade. Aquela nota estava ali bem à frente dos meus olhos a provocar-me uma tentação enorme! Nesses instantes fiquei naquela de pego na nota ou não pego? Mas antes que ela se arrependesse, fiz um gesto brusco para lha sacar da mão. Só que o gesto foi tão brusco que bati com a mão com alguma violência na mesinha de cabeceira e acordei!
- Vai-te lixar. Era um sonho. Que tanga que nos deste a todos! - Diziam um grupo de vozes. De qualquer maneira foi uma história fantástica.
Obrigado.
Risos e mais risos





    IR AO MAR E VOLTAR

A IDA

Luanda num dia qualquer de 1976. São sete horas da manhã. O Toyota, conduzido pelo Figas na companhia do Pulga, acaba de parar à porta do Murta, para todos irem à pesca. O Alface é apanhado no caminho.
O dia está lindo e promete e o carro já está em movimento. O depósito do gasóleo para o barco e os remos estão na mala.
Na zona da Praia do Bispo, entra o Alface e aí mesmo a equipa fica completa.
Os quatro amigos lá foram para mais um fim-de-semana de pescaria como tantos outros.
Passaram a Corimba e lá estava o cais construído em madeira para as partidas e chegadas do Kapussoca e do Kitoko, que estavam momentaneamente ou não desativados, barcos de transporte de pessoas de e para a Ilha do Mussulo. O Hotel Costa do Sol está todo imponente no ponto mais alto. Logo a seguir a Quinta Rosa Linda. Ao passar neste lindo espaço, afloraram nas mentes dos quatro amigos, boas recordações do não muito distante casamento de um amigo comum ali realizado.
Logo a seguir, menos de um quilómetro, o Futungo de Belas e o Clube de Pesca onde estava o barco guardado.
Naquele dia foram cedo para poderem “comprar” uma âncora algures num daqueles muitos barcos ali guardados. Na última pescaria, a mesma ficou preza nas pedras a cem metros de profundidade. Foram forçados a cortar a corda e abandoná-la no fundo daquele mar.
Esse dia foi demasiado preenchido e carregado de aventuras mais que qualquer dos anteriores e com a adrenalina elevada à sua potência máxima.
“Comprada” que estava a âncora, os quatro amigos dirigiram-se para o local onde estava o seu barco tipo chata com motor de popa. Recolheram as rodinhas para em cima das mesmas o barco rolar na rampa a caminho da água.
Nos primeiros metros, são apenas utilizados os remos, pois a hélice continua levantada. Esta só é colocada na água, quando houver profundidade suficiente, e assim não correrem o risco de bater no fundo arenoso.
O barco tem uma pequena cabine para guardar os diversos utensílios. Um banco à frente e outro atrás, onde se sentam para a respetiva pesca. Dois a bombordo e dois a estibordo. O motor já ronca e o barco desliza nas águas com destino à contracosta do Mussulo.
Enquanto desliza naquela superfície líquida, o Alface como de costume, pega na sua cana de corrico, coloca a amostra no anzol e lança a linha à água. A amostra meche e faz um certo ruida nas águas, atraindo no seu encalço, vários tipos de peixes de superfície. O mais atrevido e que por isso mais vezes é apanhado, é o sarrajão, peixe-serra graúdo da família do atum.
Nas idas e vindas para os locais escolhidos naquele mar para as pescarias, são pescados desta maneira, principalmente vários sarrajões. A sua carne tal como o atum é escura. Os seus filetes dão bifinhos fritos de cebolada. Uma delícia! Nessa como em outras idas, não fugiu ao habitual, foram pescados alguns. No final eram repartidos pelos quatro amigos.

NO MAR DO MUSSULO

Já muito longe da contracosta do Mussulo, são afinadas as coordenadas para o local certo. A sorte por vezes ditava a descoberta à primeira das pedras nas profundidades, entre cem e cento e cinquenta metros, condição única para se encontrar peixe graúdo de profundidade: Garoupas, corvinas, pargos e cachuchos. Principalmente estes. Nunca menos que um quilo e meio a dois quilos cada peixe.
As garoupas e as corvinas como outros peixes de profundidade, por vezes soltavam-se ao chegarem à tona. Das suas bocas saía uma espécie de balão devido à descompressão. Não tinham forças para voltar ao fundo e morriam no balançar das ondas. Quase nunca era possível apanhá-los, pois afastavam-se do barco com o movimento das águas. De-quando-em-vez, pescavam peixe-espada branco. Este peixe estava adaptado a viver tanto nas profundidades como na superfície. Todos já sabiam de que peixe se tratava mesmo antes de chegar ao cimo. Por vezes tinham a sensação de que o perdiam, pois subia e descia. Só quando esticavam o fio é que davam conta que ainda lá estava. Ao chegar ao barco e antes de o meterem neste, matavam-no com pancadas na cabeça com uma moca de madeira, da qual estavam providos. Chegava com a boca aberta carregada de dentes afiados prontinhos a morder. Uma mordidela daquelas era demasiado perigosa.
Lançada a âncora para estabilizar o barco, cada um atirava borda fora os seus cinco ou seis anzóis em cada fio de nylon de 3mm, com certo cuidado para não ensarilhar. Os anzóis eram grandes e os filetes de sardinha que serviam de isco também. A sardinha de Angola era grande e com muitas espinhas. Raramente era utilizada na alimentação. Era matéria-prima das fábricas de farinha de peixe. Esta farinha era depois usada no fabrico de diversas rações.
O mordiscar de peixe miúdo, não era para levar em conta. Só os esticões fortes. Logo que um destes se sentisse, era puxar sem descanso e sem dar tréguas para não se soltar. Por vezes os dedos ensanguentavam e apresentavam cortes devido ao deslizar do nylon.
O chumbo que levaria a linha com os anzóis ao fundo, pesava entre um quilo e um quilo e duzentos gramas. Tinha de ser assim, pois as correntes profundas arrastavam-nos para longe.
Nessa manhã ao atravessarem o Futungo de Belas, os quatro amigos não deixaram de reparar nas lindas vivendas, a maioria com piscina no jardim. Quem vivia ali, era gente abastada. O que se via transpirava a luxo. O clube está situado na extremidade norte deste luxuoso bairro. O barco balançava nas ondas e os amigos fizeram uma pausa para petiscar e beber. Comentavam entre si de quem seriam aquelas vivendas.
O Alface e o Murta com fome enjoavam. Por isso quando iam para as pescarias, levam comida e bebida. O Murta comida numas embalagens de plástico e o Alface cucas em gelo numa geleirinha portátil. Assim, quando o enjoo vinha, sinal da fome, faziam a dita pausa para comer e beber deixando os anzóis no fundo. Normalmente o Figas e o Pulga só queriam uma cervejinha. Quando puxavam as linhas, apenas vinham cabeças, sinal que tinha peixes que foram entretanto comidos por outros.
Estes amigos como muitos outros que se dedicavam à pesca, não o faziam apenas por desporto ou distração, faziam também por necessidade. A luta entre os movimentos de libertação continuava e a falta de bens fazia-se sentir muito duramente.
Em outro fim-de-semana qualquer, os quatro amigos tiveram sorte. Encontraram o sítio certo, pedras nas profundezas. Perderam a âncora mas pescaram muitas garoupas. O Figas pescou a maior com quatro quilos e meio. Mais parecia um cherne! Convidou os restantes companheiros para no dia seguinte, domingo, irem a sua casa comê-la assada no forno. Não havia batata nem se sabia ao certo quando chegaria o barco com este tubérculo. Usou batata-doce. Todos foram unânimes. Estava uma delícia. Aquele peixe com a pele escura e a carne branquinha, era delicioso.
No fim-de-semana anterior a este, os quatro amigos lá foram mar adentro como de costume. Enquanto se aproximavam do local escolhido de acordo com as coordenadas, os três que não faziam a condução, preparavam os filetes de sardinha para servirem de isco, lançando a restante carcaça ensanguentada à água. O cheiro a sangue atraiu alguns tubarões. Rondaram o barco pela frente, lado, trás e por baixo. O receio apoderou-se dos pescadores de fim-de-semana, mas rapidamente foi vencido pela adrenalina e espírito de aventura. Um dos tubarões distinguia-se dos outros. Enorme, lombo azulado, rondava o barco nadando com certa personalidade e elegância. A barbatana escura que era o seu leme, saía para fora da água. O Alface apoderou-se do arpão maior e tentou espetá-lo no tubarão. Foi impedido a tempo pelos companheiros. Nunca se sabe o poderia acontecer. Mas o bichinho a aventura ficou a morder nas suas cabecinhas.
O Murta ficou encarregado de durante essa semana, ir ao Pão de Açúcar, comprar um anzol gigante. Este veio com uma corrente de dois metros também em aço. Pesava cerca de quatro quilos. Lá estava ele na pequena cabine, juntamente com outros apetrechos à espera de ser estreado. Mas agora faltavam os tubarões. É preciso atraí-los.
Nas calmas preparavam-se para lançar os anzóis a cem metros de profundidade, quando apareceu um pequeno cardume de peixe-gato. O peixe-gato atrai o dourado. Os amigos sabiam isto. Há que preparar os cabos de aço. Os dourados devem estar a aparecer. O dourado grande, mede cerca de um metro e meio, dá muita luta e é considerado um bom peixe para pesca desportiva, precisamente pela luta que dá.
Anzóis nos cabos de aço de meio metro à espera. Não esperaram muito. Apareceram quase de imediato. Não podiam dar mais que o comprimento dos cabos, caso contrário nunca mais os segurariam, e puxados de imediato para o barco. Apanharam quatro, um para cada amigo. Nesse fim-de-semana os congeladores das geleiras das suas casas, ficaram cheios de filetes deste peixe.
No final destas lutas com os dourados, apareceu o tubarão conhecido deles, o maior. Finalmente ia ser estreado o anzol gigante. Espetaram neste uma sardinha inteira a sangrar. A corrente tinha sido previamente presa à corda da âncora que media cem metros. Atiraram várias vezes a sardinha para a frente do tubarão, mas este não havia meio de morder o isco. Tinham a informação que peixe ferido não vai para o fundo. Estavam preparados, para no caso de morder o anzol, arrastasse o barco até lhe faltarem as forças. Isto não aconteceu, porque afastou-se sem morder o isco. No fundo no fundo suspiraram de alívio, pois era imprevisível o que pudesse acontecer e podia correr mal.
Estas aventuras intensas, deixaram os amigos muito cansados.
Aproximaram-se da contracosta do Mussulo. Deixaram o barco a pouca distância da praia. Prenderam a âncora enterrada na areia para o manter no local e deitaram-se a descansar. Adormeceram todos. Enquanto dormiam aconteceu a baixa-mar. O barco estava assente na areia a mais de dois metros da água. Que chatice ia ser um problema para o voltar a pôr no mar.
Foi uma trabalheira. Aos poucos lá o foram arrastando até à água. Aí chegado foi a trabalheira maior. As ondas estavam ligeiramente alterosas e sempre que uma se aproximava, eram obrigados a afastar-se para não serem arremessados contra as tábuas da embarcação. Esta luta durou três horas. Quando finalmente conseguiram, resolveram voltar ao clube rapidamente, pois o mar estava agitado com muita calema. Era preciso regressar a tempo de guardar o barco no clube pois este tinha horas de encerrar.
Num daqueles fins-de-semana, que correu mal a pescaria, resolveram conduzir o barco até um dos pontos distantes da ilha, para uma zona pouco profunda, perto do Morro dos Veados. Aí, levantaram o motor de popa e conduziram-no apenas com os remos. Avistaram muitas barracudas (pescada gigante), mas não conseguiram pescar nenhuma apesar dos esforços. Aquele dia foi mesmo para esquecer. Há dias assim, azarentos. A calema começou a aumentar tornando-se incomodativa. Deram meia volta e foram para o clube. Não adiantava insistir.

O REGRESSO

O dia para os quatro amigos não iria terminar sem mais um tremendo susto. A meio caminho entre a ilha e a costa da Corimba quando regressavam, um deles olhou para trás e alertou os companheiros para a onda gigantesca que se aproximava deles. O Figas pôs a aceleração no máximo mas mesmo assim, a onda aproximava-se perigosamente. Na presença daquela onda, o barco parecia uma coisa minúscula, uma casquinha de noz. Estavam preparados para saltar para a água, caso se aproximasse demasiado, para não serem atirados contra as tábuas. A ansiedade era intensa e o coração batia fortemente no peito de cada um. O motor sentia-se impotente para arrastar aquela casquinha a mais velocidade. Quando pensaram que o choque com aquele monstro que o perseguia seria inevitável, afastou-se ligeiramente, e rebentou a menos de dez metros do barco. Um grande suspiro de alívio soltou-se daquelas quatro bocas.
Já no carro do Figas quando regressavam às suas casas, foram rodeados por uma manifestação de apoio ao Nito Alves. Pensaram que iam morrer. Mas não, deixaram-nos ir embora. Apanharam um susto!
Mais dois fins-de-semana e pronto. Acabaram-se as pescarias, pelo menos durante algum tempo. Uma daquelas vivendas do Futungo de Belas foi adotada para residência particular do Presidente Agostinho Neto. Foi estabelecido um perímetro de segurança à volta do bairro e o acesso ao clube e ao barco ficou interdito por tempo indeterminado.
A luta entre os movimentos não tinha ainda terminado e a falta de bens essenciais continuava, principalmente alimentos. As bichas para tudo e para nada formavam-se espontaneamente. Estava difícil aguentar a situação.
Perto do final de 1976, o Alface comprou numa agência uma passagem e dias depois partiu num 707 da TAP e chegou a Lisboa. Bastante tempo depois foi visto num dos muitos hotéis da zona de Albufeira como guia turístico. Perdeu-se de vista no meio de muitos turistas estrangeiros.
Em meados de 1977 foi a vez do Murta. Farto do pensamento a matraquear-lhe a cabeça para partir, viajou num Boing 747 desembarcou em Lisboa nos voos internacionais e carregadinho de malas e sacos transitou para os voos domésticos com destino ao Porto. Passado muito tempo, alguém o viu hospedado numa casa de turismo rural nos arredores de Alfândega da Fé em Trás-os-Montes. Tinha negócios em Espanha e atravessou várias vezes a fronteira de Quintanilha perto de Bragança. Parece que tinha uma residência algures em Espanha não muito longe da fronteira. Desapareceu da vista naquele vai e vem de Portugal Espanha e Espanha Portugal.
Já perto do final desse mesmo ano, o Figas na companhia da sua mulher e filha, passou no aeroporto de Lisboa em trânsito para os Estados Unidos da América. Arranjou um contrato de trabalho em S. José da Califórnia. Por lá ficou em terras do Tio Sam.
Por fim o Pulga. O Pulga gostava dumas cervejinhas. Não quis afastar-se dos seus fornecedores habituais de bebida. Praticamente todos os dias depois das dezoito horas, era vê-lo na esplanada do Amazonas, só ou acompanhado a beber uns finos e a comer os respetivos aperitivos: Ginguba, tremoços, camarõezinhos e dobrada. Saboreava cada fino com aquela sabedoria de quem sabe beber. Ao fim de dez ou quinze finos e outros tantos pires de aperitivos, suspirava e dizia: Estou jantado. Ia para casa que não era longe dali. No dia seguinte sensivelmente à mesma hora repetia a dose. Resolveu ficar, passando a ser mais um cidadão da novel República de Angola.




    ANGOLA SELVAGEM

UM PARAÍSO DOS RECURSOS NATURAIS

Angola é um país riquíssimo em belezas naturais que proporcionam paisagens de cortar a respiração, com espetaculares formações rochosas, quedas de Água, praias, lagoas e imensos rios.
Com capital na cidade de Luanda, Angola localiza-se na costa Sudoeste do continente Africano, fazendo fronteira a norte e a nordeste com o Congo, a leste com a Zâmbia e a sul com a Namíbia, por fim a Oeste é banhada pelo oceano atlântico.
Com cerca de 12 milhões de habitantes praticamente distribuídos principalmente na orla costeira e na região de Huambo, Angola possui uma grande variedade de etnias que permitem que este país possua uma grande diversidade cultural.
A língua oficial é o Português, no entanto existem cerca de 42 línguas, sendo que as mais faladas resumem-se a três, o Quimbundo, O Quicongo e o Umbundo.
Toda esta riqueza cultural consequentemente manifesta-se nas mais diversas áreas, desde a música, a pintura, a dança, a escultura em madeira, e inevitavelmente a gastronomia.
Com um clima apenas definido por duas estações, designadas localmente pela estação da chuva e pela estação de Cacimbo (Agosto).
Este país é um destino muito apetecido por turistas de todo o mundo que procuram viver novas experiências admirando as belezas da África plenamente expressas neste extenso país tropical, banhado pelo Oceano Atlântico.
As vastas florestas tropicais, rios, lagos, lindíssimas quedas de água, montanhas, formações rochosas únicas, grutas, cavernas, desertos e praias belíssimas.
O território angolano atrai muitos turistas também pela riqueza da sua vastíssima fauna que inclui toda a espécie de animais, desde elefantes, leões, Antílopes, zebras, gazelas, rinocerontes, girafas, avestruzes, macacos, gorilas e muitos mais.
Resumindo e concluindo, Angola não tem sete mas muito mais maravilhas da natureza.
Angola está a implementar uma política de preservação ambiental e de sustentabilidade. Em conformidade com esta política, vai eleger as suas maravilhas da natureza, colocando-se na linha da frente no continente africano. Aliás, já foram divulgadas em 2013 as vinte e sete a concurso, entre praias, grandes relevos, grutas, falésias, quedas de água, rios, lagoas e áreas protegidas. Serão eleitas as sete maravilhas.

SELVAGEM, FASCINANTE, MISTERIOSA, ESPETACULAR!




    LUANDA DE TODOS OS TEMPOS

LUANDA, LOANDA

Luanda, antigamente Loanda, é a maior cidade de Angola e a sua capital. Está situada na costa do Oceano Atlântico. É o principal porto marítimo e centro económico do país.
Foi fundada em 25 de Janeiro de 1576 pelo fidalgo e explorador português Paulo Dias de Novais, sob o nome de São Paulo da Assunção de Loanda.
Tem uma população entre 7.5 e 8.5 milhões de habitantes. É a terceira mais populosa cidade lusófona do mundo, à sua frente estão apenas São Paulo e Rio de Janeiro, no Brasil — é, efetivamente, a mais populosa capital lusófona do mundo, à frente das demais, incluindo Maputo, Brasília e Lisboa.
Luanda tem diversas indústrias: De transformação de produtos agrícolas, produção de bebidas, têxteis, cimento, recentemente fábricas de montagem de carros, materiais de construção, plásticos, metalurgia, cigarros e sapatos. Descoberto recentemente petróleo nas imediações, este é refinado na cidade. A refinaria foi várias vezes danificada durante a guerra civil que assolou o país entre os anos de 1975 e 2002. Luanda possui um excelente porto natural, sendo as principais exportações o café, algodão, açúcar, diamantes, ferro, sal, cobre, ouro, trigo e milho.
Os habitantes de Luanda são, na sua maioria, membros de grupos étnicos, e o dialeto falado é o quimbundo. Existe uma população de origem europeia, constituída principalmente por portugueses estimados em 414.243 pessoas e uma importante comunidade chinesa estimada em 67.000. A língua oficial e a mais falada é o português, sendo também faladas várias línguas ou dialetos. Luanda foi a principal cidade a acolher os jogos do Campeonato Africano das Nações 2010.

ETIMOLOGIA

A cidade adquire o nome através da sua ilha (Ilha de Luanda). Foi nesta ilha onde os primeiros colonos portugueses se radicaram. O topónimo Luanda provém do étimo lu-ndandu. O prefixo lu, primitivamente uma das formas do plural nas línguas bantu, é comum nos nomes de zonas do litoral, de bacias de rios ou de regiões alagadas (exemplos: Luena, Lucala, Lobito) e, neste caso, refere-se à restinga rodeada pelo mar. Ndandu significa valor ou objeto de comércio e alude à exploração dos pequenos búzios colhidos na ilha de Luanda e que constituíam a moeda corrente no antigo Reino do Kongo e em grande parte da costa ocidental africana, conhecidos por zimbo ou njimbo.
Como os povos ambundos moldavam a pronúncia da toponímia das várias regiões ao seu modo de falar, eliminando alguns sons quando estes não alteravam o significado do vocábulo, de Lu-ndandu passou-se a Lu-andu. O vocábulo, no processo de aportuguesamento, passou a ser feminino, uma vez que se referia a uma ilha, e resultou em Luanda.
Outra das versões para a origem do nome refere que o mesmo deriva de "Axiluandas" (homens do mar), nome dado pelos portugueses aos habitantes da Ilha, porque quando aí chegaram perguntavam o que estavam a fazer, estes responderam "uwanda", um vocábulo que em kikongo, designava trabalhar com redes de pesca.




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